Durante 25 anos, cientistas da Northwestern University, nos Estados Unidos, estudaram um grupo raro de indivíduos com mais de 80 anos que mantêm uma memória comparável à de pessoas 30 anos mais jovens. Esses idosos, apelidados de “SuperAgers”, vêm desafiando a ideia de que o declínio cognitivo é inevitável com o envelhecimento.
Segundo reportagem do ScienceDaily, os pesquisadores descobriram que esses indivíduos possuem características cerebrais e comportamentais únicas que os protegem contra doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.
O que faz um SuperAger diferente?
O estudo revelou que os SuperAgers compartilham alguns traços em comum, tanto em termos biológicos quanto sociais. Entre os achados mais relevantes, estão:
Estrutura cerebral preservada: os cérebros dos SuperAgers não apresentam o afinamento do córtex típico da velhice. Além disso, eles possuem uma camada mais espessa na região do córtex cingulado anterior, envolvida na tomada de decisões e regulação emocional.
Resistência a proteínas tóxicas: enquanto alguns desses indivíduos não acumulam as proteínas associadas ao Alzheimer (como amiloide e tau), outros até as desenvolvem, mas não sofrem os efeitos prejudiciais, fenômeno descrito como “resiliência cerebral”.
Neurônios especiais: os SuperAgers têm maior quantidade de neurônios de von Economo, relacionados ao comportamento social, e de neurônios entorrinais, fundamentais para a memória.
Alto nível de sociabilidade: apesar de estilos de vida variados, todos relataram relações interpessoais sólidas e uma vida social ativa, o que pode ter um papel protetor na manutenção das funções cognitivas.
Implicações para a prevenção de demências
De acordo com a professora Sandra Weintraub, uma das autoras do estudo, os resultados sugerem que “a memória excepcional na velhice não apenas é possível, mas está ligada a um perfil neurobiológico distinto”. Essa descoberta pode orientar o desenvolvimento de novas abordagens para preservar a saúde cerebral por mais tempo.
O artigo com os resultados integra uma edição especial da revista Alzheimer’s & Dementia: The Journal of the Alzheimer’s Association, que celebra os 40 anos do programa de centros de pesquisa do Instituto Nacional sobre Envelhecimento e os 25 anos do Centro Nacional de Coordenação do Alzheimer.
Desde o início do projeto, em 2000, 290 SuperAgers participaram do estudo e 77 deles doaram seus cérebros após a morte. A análise dessas amostras permitiu identificar as características celulares únicas do grupo e aprofundar o conhecimento sobre os mecanismos que preservam a cognição.
A professora Tamar Gefen, coautora do estudo, destacou o impacto dessas contribuições: “Doar o cérebro permite descobertas mesmo após a morte, oferecendo uma espécie de imortalidade científica”, disse ela ao ScienceDaily.
As descobertas sobre os SuperAgers reforçam que a perda de memória não é uma sentença automática da idade avançada. Ao compreender os fatores que permitem essa preservação extraordinária das funções cognitivas, abre-se caminho para estratégias preventivas mais eficazes contra a demência e outras doenças neurológicas.






