Aos 69 anos, o médico carioca Cláudio Gil Araújo é reconhecido como um dos principais nomes da medicina do exercício e do esporte, principalmente fora do Brasil. Sua reputação acadêmica e profissional pode ser mensurada pelo número de citações que seus artigos já receberam, segundo o Google Scholar: 14.111. Isso ocorre porque Araújo vem publicando suas pesquisas em periódicos científicos internacionais há mais de duas décadas.
No mês passado, o European Journal of Preventive Cardiology publicou o artigo “Sitting–rising test scores predict natural and cardiovascular causes of deaths in middle-aged and older men and women” (em tradução livre, “Pontuação no teste de sentar e levantar prevê causas naturais e cardiovasculares de morte em homens e mulheres de meia-idade e idosos”).
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Conhecido como SRT (Sitting-Rising Test), o teste criado por Araújo no final dos anos 1990 na Clínica de Medicina do Exercício (Clinimex), no Rio de Janeiro, tornou-se um preditor surpreendentemente aceito de longevidade e risco de mortalidade. O teste — que resulta em notas de zero a 10 — mede a capacidade de sentar no chão e voltar a se levantar usando o mínimo de apoio possível (assista ao vídeo com o médico para entender como funciona).
O artigo, assinado por Araújo e um grupo de pesquisadores, apresenta resultados de 12 anos de pesquisa, nos quais foram acompanhados 2.892 homens e 1.390 mulheres com idades entre 46 e 75 anos, participantes voluntários de uma avaliação médica focada em aptidão física e saúde. Os participantes que obtiveram a pontuação máxima de 10 tiveram, em média, uma taxa de mortalidade de 3,7%. Essa taxa triplicou para 11% entre aqueles com pontuação oito. Já no grupo com menor pontuação, houve aumento de 42% na taxa de mortalidade.
Quase 50% dos participantes que não conseguiram se levantar do chão sem ajuda morreram durante um período de dez anos. Apenas três pessoas com pontuação 10 no SRT morreram por causas naturais nos quatro primeiros anos de acompanhamento. Médico com mestrado e doutorado em Fisiologia (todos pela UFRJ), pai de duas filhas e avô de dois netos, Araújo conversou com a coluna sobre suas pesquisas.
Quais foram os principais avanços na validação e aplicação do teste desde sua apresentação formal em 1999?
O primeiro artigo sobre o teste de sentar e levantar foi publicado em 1999 na Revista Brasileira de Medicina do Esporte. Considero essa data o “nascimento científico” do teste. Desde então, ele passou por diversas validações: inicialmente, conferindo sua confiabilidade — ou seja, se oferece resultados consistentes quando repetido. A validação comparou o teste a outros métodos, analisando a relação entre componentes como flexibilidade, equilíbrio, composição corporal e potência.
Como o teste tem sido incorporado na prática clínica e em pesquisas científicas?
O teste vem sendo adotado tanto no Brasil quanto no exterior. Em Hong Kong, por exemplo, integra avaliações domiciliares. Desde 1999, ele foi incorporado em escolas na Inglaterra, onde serve para avaliar a aptidão física de crianças pré-escolares. No Brasil, as Forças Armadas o utilizam para identificar rapidamente problemas de aptidão física em recrutas.
Como o SRT consegue medir simultaneamente flexibilidade, força muscular, equilíbrio e coordenação de forma simples?
Os principais componentes avaliados são flexibilidade, equilíbrio, força, potência muscular e composição corporal. O teste mede essas aptidões porque todas estão envolvidas no movimento de sentar e levantar. Para levantar-se do chão ou de uma cadeira, é preciso potência e flexibilidade para dobrar joelho, tronco, quadril e tornozelo. O equilíbrio é fundamental para não cair, e o peso corporal influencia diretamente a dificuldade do movimento.
Que recomendações o senhor daria para os familiares de idosos no uso do teste?
O teste pode ser aplicado em idosos, inclusive os muito longevos, desde que realizado com cautela. É importante destacar que o fundamental não é a velocidade, mas a técnica de execução. Desconta-se um ponto para cada apoio (mão, antebraço, joelho, coxa) e meio ponto para cada desequilíbrio. O SRT é quase universal, com adaptações possíveis para pessoas com síndrome de Down, deficiência visual ou auditiva.
Pode descrever sua experiência pessoal com o SRT e o que mais o orgulha?
Tenho orgulho de ter desenvolvido um método brasileiro, financiado pelo CNPq e pela FAPERJ, hoje reconhecido e implementado internacionalmente. Nosso trabalho foi destaque em jornais como The Guardian, Daily Mail e Times of India, com mais de 300 matérias internacionais — inclusive mais do que no Brasil. Isso me enche de orgulho, pois demonstra a relevância de um trabalho nacional que impactou a saúde de muitas pessoas.
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