Durante a semana de moda da Ucrânia, realizada entre 4 e 8 setembro em Kiev, civis e militares feridos no conflito com a Rússia participaram como modelos em um desfile que chamou a atenção pela proposta fora dos padrões convencionais da indústria. A informação foi publicada pelo jornal The New York Times, que acompanhou o evento no local.
A passarela foi ocupada por ucranianos amputados ou com ferimentos visíveis, muitos dos quais sofreram danos físicos em consequência direta da guerra. A proposta da apresentação foi unir moda e conscientização, destacando as consequências humanas do conflito iniciado em 2022.
- ‘Dronefobia’: o trauma dos soldados que retornam da guerra na Ucrânia
- Ucrânia usa enxames de drones com IA contra a Rússia e leva guerra à fronteira das armas autônomas
- Os tanques infláveis e armamentos ‘2D’ usados pela Ucrânia para enganar a Rússia na guerra
Desfile utiliza moda como instrumento de reconstrução
O desfile ocorreu no porão de um centro cultural em Kiev, que também serve como abrigo antiaéreo. Organizado pela marca ucraniana austin.l, o evento teve como foco a reutilização de materiais e a reconstrução de peças a partir de uniformes militares danificados.
Entre os participantes estava Roman Horbyk, de 31 anos, que perdeu parte da perna durante os combates. Outros modelos também apresentaram próteses ou cicatrizes visíveis, compondo um cenário visual que contrasta com os desfiles tradicionais do setor.
Além do aspecto estético, o evento teve caráter estratégico. Em um contexto de guerra prolongada, a iniciativa busca manter a Ucrânia no radar da atenção internacional por meio de diferentes formas de expressão cultural. Segundo os organizadores, a intenção é utilizar a moda como plataforma para ampliar a compreensão global sobre o impacto da guerra na população.
A estilista Lesia Patoka, responsável pelas criações da austin.l, afirmou ao The New York Times que o objetivo foi “mostrar as marcas deixadas pela guerra e o processo de adaptação e continuidade da vida”.
Passarela como espaço de representação e política
A escolha de um abrigo antiaéreo como local do desfile foi também uma forma de refletir a realidade do país, que ainda convive com alertas frequentes de bombardeios. O local já havia sido utilizado para eventos culturais, como forma de manter a agenda artística ativa apesar das dificuldades logísticas e de segurança.
A semana de moda não apenas apresentou coleções, mas também funcionou como uma ação de resistência cultural e simbólica. Ao incluir pessoas afetadas diretamente pelo conflito, os organizadores transformaram o evento em uma vitrine de reconstrução social.
A presença de modelos com amputações e outras marcas da guerra propôs uma redefinição de padrões estéticos. A proposta do desfile foi expor, em vez de ocultar, os sinais da violência e da recuperação, contribuindo para um debate mais amplo sobre inclusão e diversidade na moda.
Ao contrário de iniciativas comerciais, o evento priorizou mensagens sociais e simbólicas, oferecendo espaço para narrativas individuais inseridas em um contexto coletivo de enfrentamento e reconstrução, explica a publicação.






