Voltar alguns passos para ganhar tempo ou facilitar uma tarefa parece, em tese, uma decisão racional. Mas nosso cérebro nem sempre funciona assim. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley, dos Estados Unidos, identificaram e batizaram um novo tipo de viés cognitivo que nos leva a rejeitar soluções mais eficientes quando exigem refazer parte do caminho: “aversão à repetição”.
A equipe fez vários experimentos e descobriu que frequentemente nos recusamos a escolher uma solução ou caminho mais eficiente se isso exigir que retornemos ao progresso já alcançado, destacou o Gizmodo. Isso sugere que o medo subjetivo de aumentar a carga de trabalho e a hesitação em recomeçar do zero contribuem para o viés.
Tendemos, por exemplo, a nos ater ao status quo ao escolher um restaurante favorito para jantar, mesmo quando alguém recomenda uma opção potencialmente mais saborosa. Há também a relutância em desviar de um caminho desastroso e escolher outro simplesmente porque investimos muito tempo ou recursos nele.
Os pesquisadores argumentam que a aversão à repetição” é um primo próximo da falácia do custo irrecuperável e vieses semelhantes, mas que, em última análise, descreve um tipo único de armadilha cognitiva.
Para testá-la, eles realizaram quatro tipos diferentes de experimentos que envolveram mais de 2.500 adultos, alguns dos quais eram estudantes da UC Berkeley e outros voluntários recrutados pelo Mechanical Turk da Amazon.
Em um teste, as pessoas foram solicitadas a percorrer diferentes caminhos em realidade virtual. Em outro, tiveram de recitar o máximo possível de palavras que começassem com a mesma letra. Quando a letra selecionada foi G, todos foram questionados no meio do caminho se queriam continuar com a mesma letra ou mudar para “T”, uma opção provavelmente mais fácil.
De acordo com o Gizmodo, essa decisão foi enquadrada de duas formas: permanecer na mesma tarefa, simplesmente com uma nova letra, e jogar fora o trabalho que tinham feito até então e começar de novo em uma nova tarefa. Os voluntários também receberam barras de progresso para a tarefa, permitindo que vissem que realizariam a mesma quantidade de trabalho, independentemente da escolha (embora, novamente, a letra “T” fosse mais fácil).
Cerca de 75% dos participantes fizeram a escolha de mudar, mas apenas 25% fizeram o mesmo quando a mudança foi apresentada como a necessidade de voltar atrás.
“Quando eu estava analisando esses resultados, pensei: ‘Ah, será que há algum erro? Como pode haver uma diferença tão grande?'”, disse a autora principal Kristine Cho, doutoranda em marketing comportamental na Haas School of Business da UC Berkeley, em uma declaração à Association for Psychological Science.
Agora, outros pesquisadores terão que confirmar as descobertas, e ainda há muitas perguntas a serem respondidas sobre. Mas já fica claro que muitas vezes, nossa resistência em “voltar atrás” pode ser menos racional do que imaginamos.






