A Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO), uma agência da ONU, divulgou a edição 2025 do ranking dos 100 principais clusters de inovação do planeta. O resultado é revelador: a região Shenzhen–Hong Kong–Guangzhou desbancou Tóquio–Yokohama e assumiu o posto de maior polo de inovação do mundo. O fator decisivo foi a inclusão, pela primeira vez, dos investimentos de venture capital como critério de avaliação.
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Essa mudança simboliza a maturidade do ecossistema chinês. O país deixou de ser apenas a “fábrica do mundo” e passou a liderar em pesquisa aplicada, startups e capital de risco. O Vale do Silício, nos Estados Unidos, continua como referência em intensidade de inovação e ocupa a 3ª posição, enquanto Pequim e Seul completam o Top 5.
O levantamento da WIPO é um dos principais termômetros globais de inovação. Ele combina três variáveis-chave: pedidos internacionais de patentes (PCT), publicações científicas indexadas e investimentos de venture capital. Ao integrar ciência, tecnologia e mercado de capitais, o índice amplia o conceito de inovação, valorizando não só quem pesquisa, mas também quem consegue transformar ideias em negócios.
O Top 10 global segue dominado por polos asiáticos, norte-americanos e europeus. Juntos, concentram 40% das patentes internacionais, 35% dos aportes de venture capital e 16% das publicações científicas do planeta. É a prova de que, apesar de globalizada, a inovação ainda se concentra em poucos epicentros.
Mas há novidades. Em 2025, cidades como Cidade do México, Dublin e Oslo entraram no ranking, ao lado de novos polos na Índia e na Turquia. Isso indica que a geografia da inovação está se tornando mais diversificada.
São Paulo no mapa global
No contexto latino-americano, São Paulo é protagonista. A cidade ocupa a 49ª posição no ranking geral e aparece em 96º lugar quando se considera a intensidade relativa à sua população. Apenas outro cluster latino-americano figura na lista: a Cidade do México, que estreou neste ano em 79º lugar.
Segundo a WIPO, nos últimos cinco anos São Paulo registrou 37 pedidos internacionais de patentes por milhão de habitantes, 1.304 artigos científicos publicados por milhão de habitantes e 85 negócios de venture capital por milhão de habitantes. Esses números revelam um ecossistema que alia produção científica relevante, geração de propriedade intelectual e acesso a capital privado.
Outro destaque é a forte colaboração internacional. Cerca de 25% das patentes paulistanas foram depositadas em parceria com inventores de cidades como Rio de Janeiro, Nova York e Filadélfia. Já 47% dos artigos científicos foram publicados em coautoria com instituições de, sobretudo, Boston–Cambridge, Nova York e Rio de Janeiro. Isso confirma São Paulo como hub de conexões, atributo essencial em redes globais de inovação.
No ranking de protagonistas locais, a USP responde por metade das publicações científicas da cidade, seguida por Unifesp e Unesp. No campo das patentes, Braskem (com 10% dos depósitos), Instituto Butantan e Natura se destacam — evidenciando a força da bioindústria, da química e dos cosméticos como áreas estratégicas.
Como alguém que acompanha de perto a evolução dos ecossistemas de inovação globais, vejo a posição de São Paulo como uma conquista significativa, não apenas para o Brasil, mas para toda a América Latina. Mostra que o país já tem ativos científicos, tecnológicos e empresariais capazes de dialogar com os grandes polos do mundo.
Se conseguir multiplicar o impacto da inovação para além de um círculo ainda restrito de empresas e instituições, São Paulo pode atuar como contraponto latino-americano em uma geopolítica de inovação ainda muito concentrada na Ásia, EUA e Europa. E, claro, é fundamental o reforço da aposta noutros ecossistemas para que mais cidades brasileiras se possam destacar.
Estar entre os 50 maiores clusters de inovação do mundo dá ao Brasil relevância regional. Mas também expõe fragilidades: enquanto Shenzhen ou o Vale do Silício operam com altíssima densidade inovadora, São Paulo ainda aparece distante nesse quesito, em 96º lugar.
Ou seja: temos escala, mas precisamos de intensidade. Isso significa transformar mais ciência em negócios, atrair maior volume de capital de risco e multiplicar hubs além da capital paulista.
A mensagem do relatório é clara: a geopolítica da inovação está em mutação. A China assumiu a liderança, os EUA preservam a intensidade e novos polos surgem no mapa. Para o Brasil, a lição é que não basta marcar presença: é preciso competir em densidade e relevância.
São Paulo já está no jogo. Mas para que o país deixe de ser um caso isolado e passe a ocupar posição robusta no tabuleiro global, será necessário escalar o que já existe e expandir a inovação para além da metrópole. Só assim o Brasil poderá aspirar a figurar entre os verdadeiros protagonistas da economia do futuro.
*André Nunes é Partner e Managing Director da Beta-i Brasil, consultoria de inovação colaborativa global, com escritórios em São Paulo, Lisboa, Boston e Bruxelas
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