Passe em qualquer rua movimentada. Observe um ônibus, o metrô, uma fila de café. O que você vê? Fileiras de cabeças baixas, olhos presos a retângulos brilhantes, rostos iluminados pela luz azulada dos smartphones.
A tela, esse portal que nos conectou, informou e entreteve por décadas, também nos isolou. Ela se tornou a prisão silenciosa do nosso tempo. Consumimos o mundo por janelas artificiais, quando poderíamos estar vivendo-o.
Mas essa era está chegando ao fim.
As primeiras fissuras no paradigma das telas
Pode parecer uma previsão ousada, mas as peças já estão no tabuleiro. O Apple Vision Pro, o Meta Quest 3 e outros headsets ainda caros e pesados não são o destino final, apenas maquetes de um futuro em construção. São protótipos que comprovam uma tese: a próxima grande plataforma tecnológica não será uma tela, mas a própria realidade imersiva.
Assim como o computador pessoal e o smartphone tiveram suas primeiras versões desajeitadas antes de se tornarem indispensáveis, os dispositivos de realidade mista são apenas o início de uma virada cultural e econômica.
Nenhuma revolução tecnológica nasce de produtos de luxo. A verdadeira popularização vem daquilo que é acessível, simples e desejável. É por isso que os óculos inteligentes são o cavalo de Troia da realidade aumentada.
A Meta já entendeu isso ao se associar à Ray-Ban, transformando um acessório de moda em porta de entrada para a vida digital imersiva. Primeiro, eles adicionam câmeras e áudio; depois, inteligência artificial; e logo, informações digitais sobrepostas ao mundo físico.
A Apple, especialista em transformar conceitos em objetos de desejo, deve seguir um caminho parecido: tornar a tecnologia invisível, intuitiva e inevitável.
E não é só moda ou design. O recente anúncio do AndroidXR no Google I/O mostra que os gigantes da tecnologia estão preparando as fundações dessa nova era. O ecossistema está sendo desenhado para que milhões de desenvolvedores criem experiências que não cabem em uma tela, mas que se misturam com as ruas, os escritórios e até nossas conversas.
Dentro de poucos anos, não será mais uma questão de status “ter ou não ter” um óculos inteligente. Ele será o próximo passo lógico depois do smartphone. Tão natural e essencial quanto olhar para a palma da mão hoje.
O futuro não será consumido. Será visto.
Agora, imagine caminhar pela cidade e ver as informações de trânsito surgindo sobre a avenida, os menus de restaurantes flutuando ao lado das mesas, o histórico de um museu aparecendo diante da obra que você observa.
Imagine conversar com um amigo em outro país, mas vê-lo, como avatar digital, sentado ao seu lado no banco do parque.
Isso não é ficção científica. É um futuro iminente. E, quando ele chegar, não falaremos mais de “usar tecnologia”, mas em vivê-la.
A próxima geração não crescerá curvada sobre telas. Ela olhará para o mundo e enxergará uma camada digital de conhecimento, de interação e de entretenimento costurada à própria realidade.
Os headsets de hoje, pesados e caros, são apenas prenúncios. Em breve, os dispositivos serão leves, acessíveis e indispensáveis. A grande questão não é “se” essa revolução vai acontecer, mas quem estará pronto para liderar e quem ficará preso na era da tela.
A tela foi nossa janela. Agora, o mundo será nossa interface.
*Leandro Angelo é sócio e vice-presidente Latam da CI&T






