A ciência tem feito poucos avanços nas pesquisas para desenvolver um medicamento capaz de curar o Alzheimer; o que se tem são remédios que ajudam a retardar os efeitos quando a doença já está instalada. Por outro lado, as pesquisas que buscam prever se alguém tem hoje condições de desenvolver a doença no futuro, por exemplo, daqui a 10 anos, estão avançando rapidamente.
Já escrevi aqui sobre a pesquisa da Unifesp, liderada pelo cientista Paulo Bertolucci, batizada de BioAZ — sigla para Biomarcadores para Doença de Alzheimer — que vai acompanhar 500 pessoas com idade superior a 55 anos que tenham alguma reclamação recente sobre a memória. Na mesma linha, a Mayo Clinic, uma das instituições científicas e hospitalares mais importantes e respeitadas do mundo, parece estar mais avançada.
A edição de dezembro da revista científica The Lancet, publicada há alguns dias, traz um artigo em que cientistas da Mayo afirmam ter desenvolvido um modelo que prevê tanto o risco ao longo da vida quanto o risco nos próximos dez anos de uma pessoa desenvolver comprometimento cognitivo leve (CCL) e demência, mesmo sem qualquer sintoma. A ferramenta combina genética, idade, sexo e exames cerebrais para prever o declínio cognitivo anos antes dos sintomas aparecerem.
Causa mais comum de demência no mundo, o Alzheimer afeta atualmente cerca de sete milhões de americanos com 65 anos ou mais – no Brasil, segundo o Ministério da Saúde, seriam aproximadamente 1,2 milhão. Alguns sinais iniciais da doença incluem esquecimento, perda de objetos e mudanças de humor e personalidade.
Os cientistas da Mayo usaram dados de 5.100 adultos acompanhados por 20 anos e encontraram uma ligação entre níveis elevados de amilóide cerebral (acúmulo das proteínas amiloides nas paredes dos vasos sanguíneos do cérebro) e o aumento do risco vitalício e de curto prazo para declínio cognitivo e demência.
Por exemplo, homens de 75 anos com a variante genética APOE4 — o fator de risco genético mais conhecido para a doença de Alzheimer de início tardio — e níveis muito altos de amilóide apresentaram risco de CCL superior a 76%, enquanto mulheres com a mesma condição exibiram riscos ainda maiores. Além disso, o envelhecimento acentua significativamente esse risco.
O professor Clifford Jack Jr., autor principal do estudo, destacou em entrevistas que a ferramenta está disponível atualmente apenas para uso em pesquisas. Ele ressalta que o uso clínico só será possível após aprovação regulatória dos tratamentos para pacientes com Alzheimer em estágio pré-clínico, ou seja, que possuem sinais biológicos da doença, mas não manifestam sintomas.
Enquanto essa nova ferramenta da neurologia preditiva não chega para nós, todos os especialistas, inclusive o professor Bertolucci da Unifesp, são unânimes em destacar a importância de medidas como exercícios físicos regulares, dieta equilibrada, sono de qualidade, controle do estresse e manutenção da atividade mental e social para a redução do risco de Alzheimer. Afinal, pesquisas mostram que muitas vezes o estilo de vida manda mais que o DNA.






