Trabalho, estudos, tarefas domésticas, família…É possível desacelerar diante da correria do dia a dia? Essa é a pergunta que cada vez mais pessoas tentam responder em meio à perda qualidade de vida e saúde mental no mundo moderno. Um movimento que nasceu nos anos 1980, mas que ganhou fôlego recentemente, quer provar que é possível reduzir o ritmo em que vivemos: o movimento slow.
Essa cultura, que prega pausas ao longo do dia, convivência afetiva, atenção plena e harmonia, surgiu com o slow food na Itália, em uma crítica direta à abertura de uma rede de fast-food em Roma. O ativista Carlo Petrini criou o manifesto para melhorar a qualidade da alimentação por meio de refeições que valorizem o produto, o produtor e o meio ambiente. Ao criticar as grandes empresas de alimentação, ele dizia focar as “energias em salvar as coisas que estão em vias de extinção, em vez de perseguir as novas”.
Em 40 anos, a necessidade de desacelerar e valorizar o meio ambiente, só cresceu. Em 2024, 472.328 trabalhadores foram afastados por ansiedade e depressão no Brasil, segundo o Ministério da Previdência Social, um aumento de 68% em relação ao ano imediatamente anterior.
Tendências para o Futuro:
- Novo metaverso: empresas usam gamificação no recrutamento e na análise de competências de jovens talentos
- Epidemia da solidão: excesso de trabalho, preocupações e incertezas afetam vida social de brasileiros
- Baixo desperdício de alimentos é tendência que reduz custos, aumenta a sustentabilidade e ainda cria novos negócios
- Como as empresas estão lidando com os desafios energéticos na era da inteligência artificial
Com iminente necessidade de mudança, o movimento slow ganhou novas ramificações, chegando ao trabalho (slow work), ao turismo (slow travel), à arquitetura (slow architecture), à infância (slow kids) e à vida como um todo (slow living).
Professora universitária, escritora e mãe, Michelle Prazeres se viu diante de um impasse: como reduzir sua rotina de trabalho para ter mais tempo para os filhos com tantos boletos para pagar no final do mês? “Decidi ter uma vida mais simples. Talvez eu não viaje nas férias, more em um apartamento menor e meus filhos ganhem roupas usadas dos primos, mas acho que é suficiente para viver bem. Foram escolhas que eu fiz para ter uma vida desacelerada”, afirma a jornalista.
Desigualdade no descanso
Pesquisadora sobre a aceleração social do tempo, Michelle afirma que as mulheres – como ela — são as mais impactadas pelo excesso de tarefas por somarem trabalho aos cuidados com a casa e com a família. No entanto, ela pondera que a desaceleração não é uma escolha individual, já que a desigualdade afeta principalmente a base da pirâmide social.
“Descansar não deveria ser um luxo. Se a gente entender o descanso como uma escolha, entramos em um contexto de violenta desigualdade. Como você vai dizer para um motoboy que trabalha 20 horas por dia ter uma vida slow”, questiona a pesquisadora.
Para democratizar o movimento slow, Michelle criou em 2016 o Guia Desacelera SP, que indica espaços para os paulistanos se desconectarem na maior metrópole do país, entre salas de leitura e grupos de artesanato e de yoga. Sete anos depois, o projeto cresceu e se tornou o Instituto DesaceleraSP, que promove o bem-estar social e a saúde mental por meio de políticas públicas, eventos e ações educativas.
De olho nessa fuga em busca dessa tranquilidade e desconexão, o setor de turismo está oferecendo pacotes de viagem para quem deseja experiências mais calmas, sensoriais e mais focadas em sustentabilidade.
Desaceleração no turismo
Na capital paranaense, o Qoya Hotel Curitiba quer passar uma sensação de calma e acolhimento no centro da cidade. Por este motivo, a marca da rede Hilton foi construída com base na arquitetura slow: ambientes interligados, tons monocromáticos e conexão com a natureza, com uso de pedras, plantas e luz natural.
Com 168 quartos, o Qoya tem ocupação média de 50% no ano, geralmente de profissionais acima de 30 anos que participam de eventos corporativos em Curitiba. Segundo a gerente-geral Isabela Mayer, alguns hóspedes aproveitam a viagem a trabalho para levar a família para conhecer a cidade e aproveitar os serviços do hotel. A comodidade tem um preço: a diária sai por a partir de R$ 772.
“A ideia é que os clientes tenham as experiências aqui dentro, como um café da manhã gostoso para aproveitar com calma, piscina climatizada e spa. Já recebi pessoas que vieram para conhecer a arquitetura e pediram a indicação dos especialistas para replicar os conceitos em casa”, afirma.
Slow work
Arquiteta com mais de 20 anos de carreira, Isabella Nalon trabalha com o conceito slow tanto em ambientes residenciais quanto em corporativos. De acordo com a especialista, a demanda cresceu principalmente após a pandemia da Covid-19, quando a população percebeu a necessidade de transformar o próprio lar em espaço de equilíbrio e paz.
Nas empresas, ela explica que o conceito chega com espaços mais arejados, com entrada de luz natural, vegetação e salas de descompressão, de jogos e copa com frutas e mesas para os funcionários se integrarem.
“Ainda que as empresas tenham ilhas de trabalho, elas precisam ambientes coletivos para equipe sair da mesa, conversar e relaxar”, detalha a arquiteta.






