Rumo à 30ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30), a ser realizada em novembro em Belém, no Pará, a fabricante sueca de caminhões, ônibus e motores industriais Scania tem bem claro em mente a importância de sua participação no evento, bem como as mensagens que quer deixar para que ações sejam, de fato, colocadas em prática por todas as nações que estarão presentes.
De acordo com Christian Levin, presidente e CEO da Scania e CEO do Grupo TRATON (conglomerado que controla, além da Scania, as marcas MAN, Navistar e Volkswagen), desde 2016, quando assumiu o desafio de liderar mudanças para tornar o transporte mais sustentável, a companhia investiu em produtos, tecnologia e soluções sustentáveis, mas percebeu que isso não é o suficiente.
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“Não podemos e nem conseguimos fazer essa mudança sozinhos. Trata-se de uma mudança sistêmica em que toda a cadeia envolvida deve se unir”, afirmou em entrevista a jornalistas esta semana em visita à sede da Scania em Södertälje, na Suécia. “Meu maior medo com a COP 30 é que, mais uma vez, seja só conversa, todo mundo seja positivo, apertemos as mãos e não haja ação”. Apesar do receio, Levin diz estar otimista e que não pretende desistir de seus objetivos.
Fredrik Nilzén, head de sustentabilidade da Scania, acrescentou que o principal objetivo na COP 30 será garantir que essas mensagens sobre infraestrutura, incentivos, impostos, viabilizando o sistema de transporte que políticos e governos podem ter, sejam as mensagens que precisam entrar nas negociações, porque é nelas que as coisas acontecem. Porque se não há planos, se não há objetivos, não há nível de ambição para lutar contra.
“Nós acreditamos que, neste momento, podemos definitivamente fazer uma diferença nas negociações climáticas em Belém. E, com isso dito, não é apenas sobre a mudança dos caminhões, mas também sobre a mudança do sistema de transporte. Também é necessário que as cidades invistam em infraestrutura”, afirmou Nilzén. Segundo ele, se não há uma rede que seja capaz de suportar uma infraestrutura de carregamento eficaz para veículos elétricos, será realmente difícil vendê-los.
Ambos os executivos reconhecem que, devido às atuais tensões geopolíticas pelo mundo, está um pouco difícil para agir agora. As empresas se sentem inseguras em investir, e isso, obviamente, não é o melhor dos mundos para a Scania e outras companhias do setor.
“Na Suécia, que é um país muito pequeno para os padrões brasileiros, com 10 milhões de habitantes, sempre fomos super dependentes das exportações. Então, qualquer coisa que limite a possibilidade de usar nossas fábricas da maneira mais lógica, para exportar aos países vizinhos, sejam tarifas ou outros obstáculos, é problemático para nós. Acreditamos no livre comércio, em seu potencial de tornar o mundo mais rico”, complementou Levin.
Portanto, na visão da Scania, um plano com objetivos em nível nacional precisa ser complementado com roadmaps práticos sobre como as coisas serão feitas. Isso inclui os investimentos em infraestrutura, o engajamento de diferentes partes da sociedade e governos fazendo isso acontecer. E a COP 30 será crucial para impulsionar essas ações.
Os caminhos rumo à descarbonização
A sustentabilidade está no centro do negócio da Scania há nove anos, quando a fabricante sueca anunciou que, sendo parte do problema das emissões de gases de efeito estufa, seria também parte da solução. A partir de então, assumiu o desafio de liderar mudanças para tornar o transporte mais sustentável, e aderiu ao Acordo de Paris – tratado internacional que objetiva fortalecer a resposta global à ameaça das mudanças climáticas.
No caminho para substituição de tecnologias capazes de descarbonizar o ecossistema de transporte e logística, nos últimos anos, a montadora apostou em biocombustíveis, fabricando motores a gás natural, biometano e biodiesel, e agora avança rumo à eletrificação de ônibus e caminhões. Alimentados por baterias recarregáveis e com motores elétricos, os veículos não emitem gases prejudiciais.
A empresa já lançou um caminhão totalmente elétrico e também um caminhão híbrido com sistema de plugar. Em alguns anos, a Scania planeja introduzir caminhões elétricos de longa distância que serão capazes de carregar um peso total de 40 toneladas por 4,5 horas e terão carga rápida durante o descanso obrigatório de 45 minutos dos motoristas.
No Brasil, o primeiro caminhão 100% elétrico da marca, importado da Suécia, foi lançado em outubro de 2024. O modelo 30 G 4×2 tem capacidade de carga de até 66 toneladas e possui autonomia para rodar 250 km com uma carga. As baterias de lítio-níquel-manganês-cobalto (NMC), que possuem alta densidade energética, garantindo mais capacidade de carga e uma vida útil prolongada.
De fato, a Scania tem metas ambiciosas para reduzir emissões de carbono, com planos de reduzir as emissões das suas próprias operações em 50% até 2025 (em comparação com 2015) e as emissões de CO₂ equivalente da sua frota circulante em 20% no mesmo período.
Segundo Nilzén, para alcançar a meta, será preciso trabalhar em diversas frentes, incluindo na redução do desperdício. “Devemos ajudar nossos clientes a descarbonizar seus transportes, mas também, precisamos garantir que os materiais que vão para esses veículos se tornem mais circulares”, disse em entrevista a Época NEGÓCIOS.
Isso porque os materiais de um veículo, como alumínio, ferro e o conteúdo das baterias, representam uma parte significativa (cerca de 80%) da pegada de carbono total na fase de produção do próprio veículo. Esta produção envolve extração, processamento e fabricação desses componentes, processos que são intensivos em energia e, portanto, geradores de emissões de gases de efeito estufa.
Em sua jornada rumo a um transporte mais sustentável, em setembro de 2024, a Scania também passou a fazer parte do Hub de Biocombustíveis e Elétricos, ao lado do Pacto Global da ONU – Rede Brasil. O objetivo é estimular discussões sobre a descarbonização do transporte rodoviário com a participação de especialistas, pesquisadores, empresários, tomadores de decisão e governo.
Já em fevereiro de 2025, a Scania passou a substituir o uso do gás natural por gás biometano renovável em sua operação brasileira na unidade industrial de São Bernardo do Campo (SP). Com a mudança, a companhia espera reduzir cerca de 250 toneladas de CO2 de origem fóssil por mês emitidos na atmosfera pela fábrica — mais de 2.750 toneladas até o fim do ano.
Em 2024, a companhia produziu em sua fábrica brasileira 500 mil caminhões. Na operação global, foram entregues 96.443 caminhões, 5.626 ônibus, bem como 11.170 motores industriais, marítimos e para geração de energia. As vendas líquidas totalizaram mais de 216 bilhões de coroas suecas (R$ 123 bilhões), dos quais cerca de 20% foram relacionados a serviços.
*A jornalista viajou à Suécia a convite da Scania.






