Inserida como objeto de estudo em centros de pesquisa, onde especialistas em cibersegurança buscam compreender seu funcionamento e explorar seu potencial, a computação quântica começa a ganhar contornos práticos e a despertar cada vez mais o interesse de empresas, bancos e indústrias. Nesse cenário, já é possível prever quando a computação quântica estará em uso comercial disseminado. Segundo Carlos Rischioto, líder de Inteligência Artificial e Computação Quântica na IBM, isso pode acontecer já por volta de 2029.
O avanço quântico traz consigo uma dualidade, segundo Rischioto. De um lado, a tecnologia promete transformar áreas como a indústria, a medicina e o setor financeiro, com capacidade de otimizar cálculos complexos e processar volumes de dados que hoje ultrapassam os limites da computação tradicional. De outro, representa também riscos: a mesma potência capaz de gerar soluções inovadoras pode ser usada para quebrar sistemas de criptografia e comprometer a segurança digital, aponta.
Por isso, especialistas reforçam a importância de desenvolver, desde já, algoritmos quânticos adaptados, que não apenas garantam a eficiência no tratamento e otimização de dados em larga escala, mas também assegurem mecanismos de defesa robustos contra fraudes e ataques cibernéticos no futuro pós-quântico.
“Se pararmos para refletir, os computadores quânticos devem chegar ao mercado em cerca de cinco anos. Isso nos dá certo alívio, já que ainda temos tempo para aperfeiçoar a tecnologia. Ao mesmo tempo, traz o grande desafio de adaptar os algoritmos para garantir uma segurança mais eficaz diante dos riscos”, afirmou Andrea Erina Komo, Portfolio Manager no Bradesco, durante o painel na Innovation Experience 2025, em São Paulo.
Um futuro promissor
Para Nafis Melo, também Portfolio Manager no Bradesco, o setor tem crescido visto que os estudos já apontam para certas otimizações e aperfeiçoamento em sistemas feitos nos centros de pesquisa, mesmo que o sistema quântico ainda esteja em fase de aperfeiçoamento e apresente certos erros em suas ações. “É uma área que tem um potencial de inovação muito grande. Pra gente, vimos uma oportunidade de explorar o tema até o ponto de, lá na frente, não ficarmos para trás”, afirmou.
O executivo do banco destaca que, em parceria com a USP, o Inovabra, ecossistema de inovação aberta do Bradesco, já conduz um projeto com tecnologia quântica voltado a identificar a carteira ideal para cada tipo de investidor. Para ele, iniciativas como essa reforçam que a computação quântica deve ganhar espaço no dia a dia das pessoas, assim como aconteceu com a Inteligência Artificial.
Gigantes como IBM, Microsoft, Google e Amazon também têm investido bilhões para liderar o setor. Em 2024, startups de computação quântica receberam US$ 2 bilhões em aportes, um crescimento de 50% em relação a 2023. A China, por sua vez, desponta como principal investidora global, acumulando US$ 15,3 bilhões e sinalizando o peso estratégico da tecnologia para o futuro.
De acordo com Komo, a computação quântica é uma tecnologia promissora, mas não uma substituta da tradicional, como sugere o Q-Day. Ela ressalta que a computação clássica possui limitações que a quântica já é capaz de superar. “A computação quântica não apresenta soluções para tudo, mas em certas áreas facilita muito mais o trabalho. Ou seja, ambas se complementarão”, explica.
Uma tecnologia promissora, mas ainda em desenvolvimento, e os cuidados com o “novo”
Apesar do entusiasmo, trata-se de uma tecnologia ainda em desenvolvimento. Para Rischioto, da IBM, ajustes são necessários para que os computadores quânticos possam operar sem falhas. “Apesar de não ser tão nova, já estudada há 10 anos, a tecnologia ainda está em evolução. Estamos construindo máquinas rumo à marca de 1000 qubits”, afirma.
Atualmente, o sistema ainda apresenta erros, mas já existem caminhos para corrigi-los. “Hoje sabemos como corrigir esses erros, mas estamos em um processo mais de engenharia do que de ciência. A previsão é que até 2029 tenhamos computadores quânticos sem falhas no mercado”, projeta.
Os especialistas alertam, no entanto, que o mesmo poder que pode ampliar soluções também pode abrir espaço para riscos. “A computação quântica pode ajudar na segurança, como na detecção de fraudes e na análise de risco. Mas também pode ser usada para quebrar chaves privadas”, pondera Rischioto.
Nesse cenário, a prioridade passa a ser o desenvolvimento de algoritmos capazes de proteger sistemas contra possíveis ataques. “Pensando no contexto de um banco, é essencial identificar onde a computação quântica pode melhorar nossa performance e serviços ao cliente, mas também já termos recursos prontos para impedir acessos indevidos e ataques a dados”, completa Komo.






