Em novembro, o Brasil sediará a COP30 em Belém, um evento de enorme relevância internacional. Depois da Rio-92 e da Rio+20, será mais um marco no caminho global rumo à sustentabilidade. Nessas conferências, o olhar do mundo sempre se volta para o Brasil – e quase sempre em tom de cobrança: reduzir o desmatamento, emitir menos CO₂, proteger a Amazônia.
O problema é que, em encontros onde estrangeiros discutem a política ambiental brasileira, noto com frequência o que chamo de neo-colonialismo ambiental. Países desenvolvidos, que já devastaram grande parte de seus ecossistemas e ainda hoje emitem muito mais CO₂ per capita do que os brasileiros, ditam novas regras internacionais. A União Europeia está na dianteira desse movimento – basta lembrar da CSRD e da CSDDD.
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A CSRD, nova diretiva europeia de reporte de sustentabilidade, exige que empresas avaliem como desafios globais, como as mudanças climáticas, afetam seus negócios. Ela se aplica inclusive a companhias brasileiras com operações na Europa. Já a CSDDD vai além: obriga empresas a monitorar impactos positivos e negativos em toda a sua cadeia de valor, em temas que vão de emissões a direitos humanos.
Ou seja: toda empresa brasileira que forneça, direta ou indiretamente, para o mercado europeu será afetada. Com o acordo Mercosul-UE, essas exigências tendem a ganhar ainda mais peso nos próximos anos.
Mas quem são eles para nos impor unilateralmente essas regras? Para expor o paradoxo, basta inverter a lógica. Imagine se o Brasil exigisse que empresas europeias adotassem políticas robustas de inclusão social, já que esse é um dos nossos maiores desafios. A Natura, por exemplo, gera renda para 1,8 milhão de consultoras no Brasil.
Se aplicássemos o mesmo raciocínio, poderíamos obrigar empresas que atuam aqui a criar mecanismos de geração de renda também na Europa. Afinal, em 2024, 93,3 milhões de europeus – 21% da população – estavam em risco de pobreza ou exclusão social, com índices ainda mais altos em países “desenvolvidos” como Grécia (26,9%) e Espanha (25%).
É evidente que precisamos avançar tanto na proteção ambiental quanto na inclusão social, no Brasil e no mundo. O que incomoda é o tom imperialista de “eu tenho um mercado atraente, então você deve se adequar”. Acredito mais em colaboração e na co-construção de soluções do que em regras impostas via compliance. Será interessante observar em que espírito essas conversas irão se desenrolar na COP30.






