Um novo projeto acadêmico transformou os vestígios das estradas da Roma antiga em uma plataforma interativa semelhante ao Google Maps. A ferramenta digital, batizada de Itiner-e, foi desenvolvida com base em dados históricos e técnicas modernas de mapeamento e revela quase 300 mil quilômetros de rotas utilizadas por volta do ano 150 d.C., ápice territorial do Império Romano. A iniciativa foi detalhada em reportagem da Nature.
O resultado é considerado um marco na arqueologia digital. A base de dados dobra a extensão antes conhecida da malha viária romana. Isso foi possível graças à combinação de registros arqueológicos, mapas antigos, fotografias aéreas e imagens de satélite, que permitiram mapear até mesmo estradas secundárias com maior exatidão.
Precisão inédita e lacunas reveladoras
Coordenado por Tom Brughmans, arqueólogo da Universidade de Aarhus (Dinamarca), o projeto aplicou técnicas de alta resolução espacial para traçar rotas com curvas e desvios realistas, superando modelos anteriores que se baseavam em linhas retas, muitas vezes ignorando terrenos montanhosos ou outras barreiras naturais.
Apesar do avanço, apenas 3% das estradas romanas têm localização confirmada com alta certeza. Outros 7% são considerados hipotéticos, e os 90% restantes são inferidos com base em múltiplas fontes. Para Brughmans, essa descoberta não representa uma falha, mas um “chamado à ação”: “Isso nos dá um mapa preciso daquilo que ainda não sabemos e onde devemos buscar”, afirmou ele à Nature.
Impactos para a pesquisa e para o público
Além do valor histórico, a iniciativa tem potencial de influenciar diversas áreas do conhecimento. Brughmans acredita que a ferramenta pode ajudar a entender como pessoas, ideias e até doenças se espalhavam há dois mil anos. “Esses insights podem ser úteis para refletirmos sobre os desafios contemporâneos”, destacou.
A historiadora Catherine Fletcher, da Manchester Metropolitan University, ressaltou que, embora as estradas romanas sejam um dos temas mais estudados da Antiguidade, ainda há muitas lacunas no conhecimento. Para ela, o projeto “faz um excelente trabalho ao reunir dados em um formato acessível que beneficia tanto pesquisadores quanto o público geral”.
Já o arqueólogo César Parcero-Oubiña, do Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha, elogiou a ferramenta por permitir que os estudiosos compreendam melhor a lógica por trás da construção das rotas romanas.
A base de dados é considerada a mais robusta já produzida, mas continua em construção. O projeto não cobre mudanças ocorridas nas estradas após o ano 150 d.C., nem permite traçar com precisão o grau em que os romanos reutilizaram caminhos já existentes. Segundo os autores, isso exigiria evidências cronológicas mais detalhadas, ainda indisponíveis.
A plataforma Itiner-e está disponível online e segue aberta à colaboração da comunidade científica. A expectativa é que continue crescendo e se consolidando como referência para futuros estudos sobre mobilidade, infraestrutura e organização territorial no mundo antigo.






