Gêmeos digitais de equipamentos, fábricas ou plantações já são utilizados em diversos setores, ajudando, por exemplo, a prever falhas em aeronaves antes que elas ocorram, a otimizar a produção, a projetar carros que aprendem com os dados de direção de milhares de usuários e a prevenir os impactos das mudanças climáticas e naturais nas plantações.
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“Um gêmeo digital é uma réplica virtual de um sistema real, um modelo dinâmico que, alimentado por dados em tempo real, imita o comportamento daquilo que representa. É como ter um espelho inteligente que não apenas reflete o estado de algo, mas também aprende com cada movimento que faz para prever o próximo”, explicou Jon Andoni Duñabeitia, diretor do Centro de Investigação Nebrija em Cognição (CINC) e da Cátedra Internacional de Saúde Cognitiva (ICCH) na Universidade Nebrija, da Espanha, em artigo publicado no The Conversation.
Na área médica, também já existem abordagens baseadas em gêmeos digitais. Caso dos cardiologistas, que usam a tecnologia para simular o funcionamento do coração de cada paciente com alto nível de detalhes. Mas e quanto ao cérebro, como essa tecnologia pode ser aplicada?
Duñabeitia destacou que os declínios relacionados à idade, a depressão, a ansiedade e os distúrbios neurodegenerativos ainda representam grandes desafios para a medicina.
“É aqui que a inteligência artificial oferece uma janela de esperança. Ao integrar e analisar grandes volumes de dados, a IA pode ajudar a detectar doenças precocemente, selecionar melhor os pacientes para ensaios clínicos e até simular a progressão de cada indivíduo usando gêmeos digitais”, indicou. “A IA oferece uma maneira de se antecipar à deterioração, criar intervenções personalizadas e acelerar o desenvolvimento de terapias mais seguras e eficazes.”
Ele citou em seu artigo que uma equipe de cientistas das universidades Nebrija e Duke e Columbia, dos Estados Unidos, em parceria com a empresa CogniFit, desenvolveu recentemente uma nova estrutura para abordar a saúde mental e cognitiva das pessoas por meio de gêmeos digitais.
São representações virtuais que integram dados do cérebro humano e atividade comportamental, hábitos diários e respostas emocionais. “Com o uso da IA, esses modelos dinâmicos podem aprender e se atualizar a cada nova interação”, salientou. “Imaginamos que cada pessoa possa ter seu próprio ‘gêmeo digital’ cognitivo, que pode ser usado para prever como sua memória ou capacidade de atenção evoluirão e para sugerir atividades personalizadas para treinar a mente antes que um problema sério surja.”
Duñabeitia apontou que a chave para essa revolução está na integração dos dispositivos atuais, como relógios inteligentes, rastreadores de atividades e sensores de sono, para fornecer informações contínuas sobre nossos corpos.
“Dados associados à frequência cardíaca, qualidade do sono, nível de atividade e estresse já podem estar alimentando dados em tempo real em um ‘duplo digital’ que aprende com esses sinais e adapta recomendações ou treinamento cognitivo ao nosso estado físico e mental em qualquer momento”, destacou.
Ele acrescentou que o papel da IA seria semelhante ao de um maestro de orquestra, coordenando todos esses dados e integrando-os em um sistema que não apenas reage, mas até mesmo antecipa as necessidades das pessoas.
“Até agora, o ‘treinamento cerebral’ digital tem se limitado a jogos divertidos, com benefícios limitados. Gêmeos cognitivos são algo completamente diferente – muito além de conjuntos de exercícios genéricos, eles oferecem um ecossistema dinâmico que se ajusta em tempo real a cada pessoa, supervisionado por profissionais de saúde e respaldado por evidências científicas”, observou o autor.
De acordo com ele, esta é uma mudança de paradigma, de uma abordagem “tamanho único” para uma medicina verdadeiramente personalizada e preventiva. Mas haverá desafios.
Um dos pontos que listou é que gêmeos digitais nessa área precisarão ser desenvolvidos de forma a garantir a privacidade dos dados e que as decisões tomadas por algoritmos sejam transparentes e éticas. Além disso, há a exclusão digital, que pode deixar de fora pessoas mais velhas ou com menos acesso à tecnologia.
“No entanto, não devemos perder de vista os potenciais benefícios… Os gêmeos digitais estão prestes a ser uma das grandes revoluções na medicina e na ciência cognitiva deste século. Décadas atrás, a ideia de ter um computador no bolso parecia ficção científica. Em poucos anos, parecerá igualmente natural ter um gêmeo cognitivo nos acompanhando e cuidando de nós. Afinal, quem melhor do que o nosso próprio duplo digital para nos ajudar a entender, antecipar e cuidar de nós mesmos?, completou Duñabeitia.
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