Seu médico pode não saber se você precisará ser internado, mas o Hstory, ferramenta de IA do Einstein Hospital Israelita, já sabe. E provavelmente já até preparou um quarto para você e seu acompanhante.
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Um dos hospitais mais inovadores do Brasil, o Einstein é pioneiro no uso de IA para coletar dados dos pacientes, organizar seu histórico, responder a perguntas específicas sobre procedimentos anteriores e fazer análises para os próximos passos do tratamento. “A inteligência serve para liberar o médico para a função mais importante da profissão, a humanização”, diz Sidney Klajner, presidente do Einstein.
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Há poucos dias, ele começou a usar uma ferramenta que grava as conversas no consultório, separando apenas as informações relevantes, que irão para um prontuário eletrônico. “Chega daquela história de ficar de costas para o paciente digitando dados. O foco tem que estar nas pessoas, e não nas máquinas”, diz.
Para o futuro, a aposta de Klajner está na medicina de precisão, nos tratamentos orientados pelo perfil genético e nos órgãos produzidos sob medida para o paciente, afastando qualquer possibilidade de rejeição. Confira abaixo os principais trechos da conversa que o executivo teve com Época NEGÓCIOS.
ÉPOCA NEGÓCIOS Como você vê o futuro da medicina?
SIDNEY KLAJNER Vejo sob dois aspectos. O primeiro diz respeito à medicina de precisão. Por conta da inteligência artificial e do grande volume de dados disponíveis, cada vez mais a gente vai deixar de praticar uma medicina tamanho único. Os tratamentos vão variar de acordo com a genética do paciente. Hoje sabemos, por exemplo, que certos anticoagulantes não funcionam em determinados pacientes, por causa da genética. Assim como a gente sabe que algumas pessoas fazem quimioterapia e, quando acaba aquele sofrimento todo, o tumor nem se mexeu. No futuro, não teremos mais esses problemas, porque os tratamentos serão pensados especificamente para o perfil genético de cada um. Outra expectativa minha em relação ao futuro é que seja possível gerar um órgão novo para fazer um transplante a partir das características do paciente, evitando assim a rejeição.
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NEGÓCIOS De que maneira o Hospital Albert Einstein está se preparando para esse futuro?
KLAJNER Para começar, não é possível inovar usando inteligência artificial e algoritmos se não houver uma base muito robusta de geração de dados, para compor um prontuário eletrônico completo, gerando benefícios tanto para o médico quanto para o paciente. O Einstein implementou o prontuário eletrônico em 2016, seguindo um modelo americano. Depois de dois anos de tropicalização, pudemos criar o nosso setor de big data, que no início tinha cinco cientistas de dados – hoje são 150. A partir do banco de dados, a inovação passou a ser algo transversal, porque ele permite vislumbrar e executar ideias em todas as etapas da atividade médica.
Vou te dar um exemplo. Hoje, só com os dados de triagem, os dados epidemiológicos do paciente e o tipo de exame que está sendo solicitado pelo médico, já conseguimos saber com bastante antecedência se ele vai ou não ser internado. Daí, quando o médico finalmente pede a internação, esse paciente já tem um leito reservado e a autorização pedida. O tempo de espera será mínimo. O aprimoramento do setor de big data, acompanhado pelo aculturamento da organização como um todo, fez com que as aplicações da IA fossem crescendo ao longo do tempo. Hoje temos, por exemplo, um centro de monitoramento da assistência médica que é pautado por inteligência artificial, com 150 indicadores de qualidade. Tudo isso é controlado numa mesma sala, como se fosse a sala de observação da Nasa. Conseguimos ver se um paciente recebeu o antibiótico com atraso, ou se ele precisa de um remédio para dor. E daí o responsável por aquele setor é acionado. Durante as cirurgias, há câmeras observando tudo: se o paciente teve uma arritmia e nada foi feito, ligamos no celular do anestesista para ver se precisa da ajuda de um cardiologista. Com esse monitoramento, conseguimos entregar segurança e qualidade.
NEGÓCIOS Como funciona o Hstory?
KLAJNER Trata-se de um sistema de inteligência artificial generativa que faz buscas dentro de um ambiente digital do hospital. Eu posso perguntar, por exemplo, quantas vezes determinado paciente foi internado, se ele passou por alguma cirurgia, quais foram os resultados. Essa IA não apenas ajuda na hora da consulta, mas também permite que a gente faça relatórios de um tratamento para a operadora de saúde, ou para efeito de atestado. Cada vez mais a gente busca melhorar a interação entre médico e paciente, para que o profissional não perca tempo com atividades repetitivas e que não agregam valor a essa relação. Comecei a usar faz pouco tempo uma ferramenta que é capaz de ouvir a conversa que tenho com os meus pacientes e colocar as informações relevantes dentro do prontuário eletrônico, sem que eu precise digitar. Isso vai facilitar muito o trabalho do profissional, porque ele não vai precisar ficar de costas para o paciente, digitando no computador. É uma das mais novas implementações nossas. Eu tenho um orgulho enorme em falar disso, porque eu gosto de tecnologia. Eu sou um early adopter de tudo que é criado aqui, inclusive para dar exemplo para os outros médicos.
NEGÓCIOS Essa tecnologia desenvolvida dentro do Einstein está disponível em outras organizações?
KLAJNER Todas as tecnologias sobre as quais eu falei estão também no Hospital Municipal da Vila Santa Catarina, parte do Sistema Único de Saúde. Nós fazemos a gestão e a operação do hospital desde que ele foi criado, então o prontuário eletrônico é o mesmo. O emprego de inteligência artificial também está acontecendo em nossos projetos na Amazônia voltados a populações vulneráveis. Hoje, a mortalidade da mulher gestante na Amazônia é a pior do Brasil. Para tentar resolver, estamos usando o SAMPa, um modelo de IA treinado em 2 mil artigos científicos de obstetrícia. Ele escuta uma consulta virtual entre o médico de família e a gestante, e sugere perguntas a serem feitas por esse médico, condutas com base nas respostas, exames que devem ser solicitados e até mesmo mudanças comportamentais para a gestante. Dessa maneira, tentamos suprir a falta de obstetras necessários na Região Norte. Esse é um projeto que tem o suporte da Bill e Melinda Gates Foundation.
Outra solução que levamos para a Região Norte é uma ferramenta que consegue determinar, por meio de uma fotografia, se a lesão do paciente é resultado da leishmaniose, uma doença endêmica na região. Se o diagnóstico for precoce, a chance de conseguir tratar é muito maior. Caso contrário, a doença pode até ser fatal. Esse diagnóstico é feito em parceria com a Fundação de Medicina Tropical de Manaus. É uma maneira de beneficiar populações que não têm acesso a saúde de qualidade. Além disso, existem dois projetos que mapeiam a qualidade de saúde, da água e do solo em locais habitados por populações quilombolas e indígenas. Dessa maneira, podemos levar informações para o Ministério da Saúde sobre como melhor atuar para beneficiar essas populações.
NEGÓCIOS Em um mundo ideal, haveria troca de informações entre todos os hospitais privados e públicos, para criar um banco de dados coletivo de uso nacional. Você vê isso acontecendo?
KLAJNER Basta haver investimento para que existam dados. Veja, eu não posso compartilhar e trocar dados com organizações que não têm nem mesmo como acessar os seus próprios. É preciso ter uma igualdade de entrada. Hoje, se você for fazer uma busca no Datasus, os nomes e diagnósticos existem, mas não tem mais nada. O governo está tentando, por meio da Secretaria Digital do Ministério da Saúde, realizar essa transformação. Eu acho louvável que exista esse esforço. Por isso que até vislumbro essa possibilidade. Mas tudo pode mudar com uma troca de governo. Por isso, acho que vai demorar uns dez anos, no mínimo.
NEGÓCIOS Como vê a busca pela longevidade?
KLAJNER Se formos nos basear nos futuristas de plantão que frequentam Austin na época do South by Southwest, em breve vamos conseguir reprogramar o envelhecimento celular. Vamos entender que tipo de alimentação permite a longevidade das células ou, em algum momento, trocar essas células. Do ponto de vista científico, eu acho tudo isso factível. Só não sei se seria bom para a humanidade. Quem vai tomar conta dessas pessoas? O envelhecimento da população hoje já é um problema, porque muitos não têm acesso a saúde. E isso com as pessoas vivendo até os 70, 80 anos. Imagina se vivessem até os 120…
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