Um hotel em uma ilha artificial na Malásia foi transformado em um campus onde empreendedores de criptomoedas e da área de tecnologia estão recebendo lições em um plano radical para criar novos estados soberanos do zero. Eles se reuniram em Forest City para participar da Network School, idealizada por Balaji Srinivasan, ex-executivo da Coinbase, segundo informações da Bloomberg.
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A Forest City é um megaprojeto imobiliário lançado em 2016 por uma das maiores incorporadoras da China em parceria com um fundo estatal da Malásia. A cidade foi planejada para ser futurista e sustentável e era vendida como um paraíso urbano. Mas problemas financeiros da incorporadora chinesa, preços altos e pandemia acabaram fazendo com que o projeto fracassasse — e fazendo a cidade ter uma ocupação baixíssima.
É lá que os empreendedores tech estão realizando uma espécie de experimento real com a visão de Srinivasan sobre “sociedades startups”, definidas menos pelo território histórico e mais por crenças compartilhadas em tecnologia, criptomoedas e regulação leve.
Ideias utópicas ligadas à tecnologia circulam pelo Vale do Silício e pela comunidade cripto há mais de uma década, porém, sem muitos sinais de aceitação ampla. Ainda assim, Srinivasan está dobrando sua aposta de que o mundo está pronto para sua versão de disrupção do Estado-nação — e fez de Forest City um campo de testes para lançar o movimento globalmente.
“Assim como aos 18 anos você escolhe sua faculdade, aos 18 anos você escolherá seu país”, disse Srinivasan recentemente em uma palestra no Bitcoin Asia, em Hong Kong. “E isso já está começando com as sociedades startups.”
Embora não esteja claro por que Srinivasan escolheu exatamente Forest City para sua escola, o local oferece vantagens, segundo a Bloomberg. Entre elas aluguéis baixos, acesso fácil a Singapura e seu aeroporto internacional, além de incentivos do governo, que tenta revitalizar o projeto criticado como “elefante branco”. Entre eles, zona de livre comércio e até taxa de 0% para family offices (veículos de investimento de super-ricos) que se instalarem lá.
Até agora, cerca de 400 estudantes, muitos empreendedores, viajaram a Forest City para aprender desde programação até teorias não convencionais sobre soberania. Eles constroem projetos de cripto, treinam o corpo e testam se uma ideologia compartilhada pode sustentar uma comunidade. O preço começa em US$ 1.500 por mês, incluindo hospedagem e alimentação em quarto compartilhado.
Na Network School, as manhãs são dedicadas a sprints de produto e sessões de programação; as tardes, a seminários sobre temas como a Restauração Meiji, a governança de Singapura e os mecanismos da administração descentralizada. Palestras funcionam tanto como mergulhos tecnológicos quanto como sermões ideológicos.
O campus também reflete a obsessão com longevidade e saúde. Além de academia e treinos personalizados, os alunos seguem uma dieta hiperproteica inspirada no movimento Don’t Die, do guru da longevidade Bryan Johnson, conhecido por gastar milhões para não envelhecer. No restaurante do Marina Hotel, ponto de encontro social da escola, o cardápio é repleto de shakes de proteína e bifes.
Balaji Srinivasan cofundou a Counsyl em 2008, atuou como sócio da Andreessen Horowitz e foi CTO da Coinbase em 2018. Em 2013, já defendia a “saída final” do Vale do Silício dos EUA, que ele dizia estar obsoleto e hostil a inovadores. Seu livro The Network State (2022) expandiu essa ideia, propondo comunidades online alinhadas ideologicamente que, usando blockchain e cripto, poderiam formar novos estados descentralizados e buscar reconhecimento diplomático.
Embora critique também políticas de Trump, Srinivasan foca seus ataques no que chama de “Tribo Azul” — liberais e democratas dos EUA. Ele sugere que a “Tribo Cinza” — empreendedores e inovadores — pode recuperar cidades como São Francisco, não pela violência, mas pelo controle do território e das ruas.
Na Network School, a seleção privilegia os que menos respeitam instituições tradicionais. “Quanto mais respeito você tem por instituições legadas — e quanto mais elas têm por você —, menos adequado você será como candidato”, escreveu Srinivasan em 2024.
O executivo afirma ainda que está apenas começando, segundo a Bloomberg. Ele planeja construir um campus permanente em Forest City para abrigar milhares de tecnólogos e replicar o modelo em cidades como Miami, Dubai e Tóquio. O objetivo final é formar novas sociedades ao redor do mundo com base nos “templates” desenvolvidos na Network School.
Para Forest City, uma sombra do projeto de US$ 100 bilhões prometido por sua construtora chinesa, sediar esse “teste” de uma nova forma de nação já trouxe benefícios.
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