Como cuidar ou analisar aquilo que nossas emoções sinalizam desconforto, que é fonte de sofrimento, consciente ou não? E como preparar profissionais e cuidadores para lidar com esta intersubjetividade, cocriando relações neuropsíquicas, sociais e culturais que favoreçam saúde, criatividade e compreensão?
Essas perguntas atravessam o nosso tempo. Vivemos em uma sociedade em que a comunicação se acelera, a escuta se fragiliza e a tecnologia avança, mas em contrapartida, todos estes fenômenos nem sempre acompanham a sensibilidade humana. Nestes tempos acelerados e “líquidos”, falar de corpo, percepção, intersubjetividade, cocriação e ética pode parecer distante do universo dos negócios.
No entanto, é justamente aí que reside um diferencial competitivo: compreender que a inovação não nasce apenas de processos e metodologias, mas da forma como nos relacionamos, sentimos e interpretamos o mundo ao nosso redor. A intersubjetividade pode ser inovadora, criativa e aberta à colaboração, ou, ao contrário, resistente, polarizadora e bloqueadora. O desafio é cultivar a primeira, transformando relações em cocriação de novas soluções, sempre dentro de limites éticos claros.
E onde começa a percepção que transforma relações em inovação? No corpo como lugar do sentido, nossa inteligência primordial e plena de relações de êxitos e inovação em milhares de anos de evolução. O corpo não é apenas uma estrutura biológica, mas o sujeito da experiência. É por meio dele que percebemos, nos comunicamos e nos reconhecemos.
Essa ideia, desenvolvida pelo filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, no século XX, hoje dialoga com descobertas da neurociência, da psicologia cognitiva e do neuromarketing: nossas decisões, preferências e comportamentos são atravessados pela experiência sensorial e emocional. Se todo conhecimento é corporificado e intersubjetivo, nossa prática cotidiana carrega uma responsabilidade ética.
Na prática, isso significa que profissionais e líderes precisam reconhecer que toda interação humana é corporificada. Um olhar, um gesto ou o tom de voz podem ativar memórias conscientes ou inconscientes, despertando confiança ou resistência. O ambiente inovador e criativo depende dessa leitura fina das relações, da intersubjetividade com seus riscos e potências e das experiências compartilhadas que podem abrir ou bloquear caminhos criativos.
A intersubjetividade, o espaço onde nossas experiências se encontram e cocriarmos, pode ser fonte de criação ou de bloqueio. Quando a escuta falha, a criatividade se apaga; quando a autoridade sufoca, o corpo do outro se fecha em resistência. Quando a experiência subjetiva é negada, o resultado é alienação, sofrimento e perda de sentido.
Porém, quando a experiência subjetiva é reconhecida, surge a abertura, colaboração e a inovação. A ética aqui é decisiva: saber quando insistir e quando recuar é o que diferencia a intersubjetividade inovadora daquela que endurece, polariza e bloqueia. O desafio não é escapar da intersubjetividade, mas transformá-la em força criativa.
É aqui que o diálogo interdisciplinar se enriquece. Antonio Damasio, neurocientista português radicado nos Estados Unidos, mostra, pela neurociência, que não existe pensamento sem corpo: sentimentos são mapas que sustentam a razão.
Wilhelm Reich, médico e neuropsiquiatra austríaco, lembra que o corpo guarda memórias e tensões musculares crônicas que funcionam como defesa psicológica, conceito que ele chamou de “couraças”, e que precisam ser liberadas para que a vida flua.
Humberto Maturana, biólogo chileno, afirma que conhecer é sempre cocriar com o ambiente, conceito que ele chamou de autopoiese, a capacidade dos seres vivos de se auto-organizar e manter sua própria identidade, e não apenas refletir passivamente o mundo.
Francisco Varela, neurobiólogo e filósofo chileno, desenvolveu a neurofenomenologia, abordagem que busca integrar ciência cognitiva e descrição da experiência vivida e em continuidade direta com Merleau-Ponty.
Em conjunto, constroem uma ponte que une filosofia, biologia, neurociência e psicologia e convergem para um ponto central: ser humano é ser corpo em relação, a ética da presença. É ela que permite transformar o encontro humano em espaço de criação, onde corpo, mente, ambiente e comunicação se entrelaçam.
E como preparar profissionais e líderes diante das vulnerabilidades, limites e códigos éticos como alicerces da inovação? Se a percepção é corporificada e a experiência é intersubjetiva, então nenhuma prática profissional ou relação humana pode se reduzir à técnica. Antes de cuidar ou conduzir outros, precisamos reconhecer nossas próprias vulnerabilidades.
Cada biografia carrega marcas que influenciam a forma como nos relacionamos. Ao interagir, ativamos tanto memórias conscientes quanto inconscientes — uma voz que remete ao pai autoritário, um gesto que lembra antigas críticas, um olhar. Nossos sentidos funcionam como portas de entrada para a interpretação da realidade, uma exterocepção atravessada por traumas, aprendizagens e afetos. Por isso, não há neutralidade: cada encontro humano é atravessado por camadas de história pessoal.
Por isso, profissionais e líderes precisam desenvolver códigos de conduta claros. Perguntar-se: estou preparado para conduzir essa situação? Tenho recursos para lidar com este desafio? Às vezes, a postura ética será intervir; outras vezes, encaminhar, buscar apoio ou simplesmente recuar.
Reconhecer limites é também estratégia de inovação, pois evita disputas inúteis, repetição estéril ou burnout. Ética, portanto, não é um adendo, mas o alicerce que garante que a intersubjetividade se torne criativa e não destrutiva.
Muitas vezes, todos nós insistimos em um ponto e a evolução fica truncada pela intersubjetividade resistente e reversa. Assim, leitores, pacientes, filhos, clientes e alunos permanecem paralisados, retroalimentados por câmaras de eco que apenas reforçam o já conhecido.
Esse movimento não leva à paz nem à evolução, mas ao bloqueio. Em alguns casos, a conduta ética será repassar a situação para outro profissional ou buscar supervisão de alguém com mais experiência. Saber pedir ajuda é tão importante quanto oferecer cuidado.
O jornalista não pode transformar vidas em mercadorias de informação. Médicos e psicoterapeutas precisam ouvir não só palavras, mas também o que o corpo comunica em silêncios, gestos e expressões.
Professores e educadores devem reconhecer que a aprendizagem é corporal e afetiva. Líderes precisam criar ambientes de diálogo que estimulem a criatividade e não a silenciem. Pais e mães, na parentalidade, oferecem mais do que normas: são modos de ser-no-mundo que moldam profundamente os filhos.
Na liderança, e em quaisquer posições de parentalidade, é preciso estimular diálogos e espaços criativos, com presença atenta, capaz de oferecer vínculos que se tornam base segura para a autonomia futura de todos.
E isso significa unir ciência e humanidades para compreender o outro como sujeito de uma narrativa corporal e emocional. Também, implica promover metodologias que reconheçam a subjetividade e criem ambientes de confiança.
A inovação começa nas relações e em gestos de escuta, empatia e confiança que transformam equipes comuns em espaços de criação coletiva e diversidade. A seguir, cinco práticas de liderança simples para transformar equipes em comunidades criativas:
- Toda história é um convite à cocriação
Contar uma breve história pessoal em uma reunião aproxima as pessoas e inspira novas ideias. Histórias positivas contagiam o grupo e aumentam cooperação e felicidade. - Diferença é combustível para inovação
Dar voz a diferentes perspectivas amplia o repertório e faz surgir soluções originais. Equipes com diversidade têm até 70% mais chance de conquistar novos mercados. - O diálogo verdadeiro é o motor da criatividade
Validar sugestões antes de criticá-las cria segurança para o time se arriscar mais.
Ambientes com confiança geram mais aprendizagem e desempenho coletivo. - Cuidar é liderar com futuro
Reconhecer pequenas conquistas no dia a dia aumenta a motivação e fortalece vínculos.
A confiança ativa a oxitocina, o hormônio do engajamento. - Respeitar o tempo do outro é inovar com equilíbrio
Encerrar reuniões no momento certo preserva energia criativa e evita desgastes.
Equipes com segurança psicológica têm menos erros e burnout e maior produtividade inovação.
Inovar é um ato humano antes de ser tecnológico. É no campo das relações que nasce a verdadeira disrupção. Cada gesto de confiança, cada escuta atenta e cada espaço seguro de diálogo prepara o terreno para o novo florescer, com mais sentido, saúde e colaboração.
*Rubens Harb Bollos é médico, pesquisador, mentor e palestrante. Mestre e Doutor (Ph.D) em Ciências da Saúde pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e Pós-Doutorado em Biologia do Desenvolvimento (USP/ICB)






