O risco segue uma fórmula básica: impacto + probabilidade = risco. Existem inúmeras ameaças a serem consideradas atualmente, mas muitas das que ganham destaque estão mais ligadas a um alarde momentâneo do que a um perigo iminente. Embora seja fundamental planejar-se para ameaças futuras, aquelas que estão diretamente à nossa frente devem ser priorizadas.
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A computação quântica, por exemplo, é frequentemente discutida como um risco de grande magnitude. No entanto, ao aplicar a fórmula, obtenho o seguinte resultado: impacto massivo + baixa probabilidade (por enquanto) = baixo risco. Podemos começar a nos preparar ao identificar os dados que possuímos hoje e que permanecerão sensíveis daqui a cinco ou dez anos, agindo agora para protegê-los com algoritmos de segurança quântica.
Embora existam preocupações de que a tecnologia quântica venha a romper com os paradigmas da cibersegurança, essa realidade ainda está distante. Por ora, o tema ocupa uma posição inferior na lista de prioridades — mas volte a me perguntar sobre isso em uma década.
Agora, vamos aplicar a mesma fórmula ao ransomware: ransomware = grande impacto + estragos já em andamento = risco massivo. Diferentemente da computação quântica, este não é um problema hipotético, do tipo “talvez um dia”. Está acontecendo agora, paralisando empresas, hospitais e serviços públicos. A projeção é que os custos globais com ransomware atinjam US$ 57 bilhões anuais até o final de 2025, com estimativa de chegar a US$ 275 bilhões até 2031.
O cálculo é simples: lide primeiro com as ameaças de hoje, o que pode muito bem incluir dados cuja sensibilidade perdura por um longo período e que, portanto, necessitam de criptografia imediata, especialmente nos setores governamental e financeiro. Só depois pense no amanhã.
Deixando as fórmulas de lado, qual é o estado da arte do ransomware e como as empresas podem se manter atualizadas diante das mudanças no cenário da cibersegurança?
O panorama atual do ransomware
Antes de tudo, um conselho abrangente: a proteção eficaz contra ransomware começa com o reconhecimento de que o problema não é restrito à TI, mas representa um risco para todo o negócio. O ransomware evolui em um ritmo muito mais acelerado do que se imagina, tornando essencial a capacidade de se antecipar à ameaça. Antes de explorarmos formas de fortalecer a proteção, vale a pena analisar mais de perto o cenário atual.
Os cibercriminosos aprimoraram suas táticas em 2025. Segundo a Cyfirma, os ataques de ransomware aumentaram 82% em relação ao ano anterior, com 510 vítimas registradas apenas em janeiro. Os EUA permanecem como o principal alvo, com 259 ataques, seguidos por Canadá (29) e Reino Unido (25). Alguns setores estão sendo mais atingidos: as violações em TI cresceram 60%, na saúde 31%, na educação impressionantes 93%, e nos transportes 69%.
Esses setores são alvos prioritários devido aos seus dados críticos e à crescente expansão de sua infraestrutura digital. De fato, os cibercriminosos estão cada vez mais focados em organizações que gerenciam grandes volumes de informações sensíveis — de questões financeiras e propriedade intelectual a dados específicos de cada setor. Essas empresas apresentam mais vetores de exploração.
Quais são os riscos emergentes?
O cenário de ransomware em 2025 se assemelha a uma corrida armamentista de alto risco, na qual os invasores superam as defesas de segurança devido à proliferação de novas tecnologias e técnicas. Hackers estão utilizando a IA como arma, explorando vulnerabilidades sistêmicas, burlando ferramentas de segurança comuns e visando infraestruturas críticas com precisão crescente. Este é o ano que marca a profissionalização das equipes de hacking.
E o termo “profissional” é o mais adequado. Grupos de hackers oferecem o Ransomware-as-a-Service (RaaS) — um modelo de negócio do cibercrime em que desenvolvedores criam e distribuem ferramentas de ransomware para afiliados, permitindo que até mesmo criminosos sem conhecimento técnico lancem ataques. Esses grupos agora contam com programas de afiliados, suporte ao cliente 24/7 e modelos de participação nos lucros.
Outra tendência alarmante é a crescente colaboração entre grupos de hackers ou mesmo entre gangues e estados-nação. Em dezembro de 2024, os grupos HellCat e Morpheus realizaram uma operação conjunta de ransomware, implantando um código de payload idêntico, o que sugere o uso de uma aplicação de desenvolvimento compartilhada.
E quanto à IA? Ela agora otimiza todo o ciclo de vida de um ataque de ransomware, de algoritmos que varrem redes sociais para identificar alvos de alto valor a bots autônomos que analisam milhares de sistemas por hora em busca de fraquezas. Grupos de ransomware como o Akira já utilizam ferramentas que negociam automaticamente os pedidos de resgate com base nos dados financeiros do alvo.
No ransomware baseado em phishing, os grandes modelos de linguagem (LLMs) estão tornando as investidas hiperdirecionadas. Os LLMs conseguem imitar estilos de escrita, traduzir iscas de phishing para mais de 50 idiomas com gírias locais e até produzir clones de voz com deepfake capazes de enganar pessoas com taxas de sucesso surpreendentes – 83% de êxito em ataques de Comprometimento de E-mail Corporativo (BEC) em 2024.
Também houve um aumento na reutilização de credenciais (24%, segundo o Mandiant M-Trends 2024), na qual invasores reciclam o mesmo par de usuário e senha em múltiplas contas, e na exploração de vulnerabilidades (38%) — fraquezas não corrigidas em software e hardware. Estes são os principais pontos de entrada para o ransomware.
Preparando-se para o ransomware de última geração
À medida que os principais grupos de hacking começam a operar como empresas de médio porte, com serviços definidos, funções especializadas, pipelines de talentos, P&D e até marketing, as empresas devem tratar a ameaça do ransomware com o mesmo nível de profissionalismo. Felizmente, combater o ransomware moderno consiste, em grande parte, em dominar os fundamentos.
Um desses fundamentos é o ambiente de “sala limpa” (clean room). O termo pode ser familiar para quem conhece a indústria, especialmente a de semicondutores, onde trabalhadores usam trajes brancos e sistemas de climatização de alta potência filtram o ar para evitar contaminação. De forma análoga, no mundo da cibersegurança, as clean rooms são ambientes virtuais controlados onde as equipes de segurança podem investigar um ataque sem o risco de reinfectar sistemas, o que lhes permite criar um plano de recuperação claro e seguro.
Outro conceito útil é a “mochila de emergência digital” (digital jump bag) para ransomware. Trata-se de um kit pré-montado com recursos essenciais para responder a um incidente, os quais frequentemente ficam indisponíveis durante um ataque. O termo foi emprestado dos paraquedistas da Segunda Guerra Mundial, que carregavam suprimentos ao saltar em território inimigo. Uma mochila de emergência para ransomware normalmente inclui: contatos-chave; cópias dos fluxos de trabalho de resposta a incidentes; contratos com as empresas especializadas contratadas; a apólice de ciberseguro; modelos de notificação para a imprensa, órgãos reguladores e titulares de dados afetados; e as ferramentas, configurações e chaves de licença necessárias para restaurar um ambiente de resposta confiável.
Contudo, não basta ter as ferramentas certas, é preciso também ter os processos e as habilidades adequadas na equipe para responder com eficácia. Seguindo a analogia da mochila de emergência, as equipes precisam treinar regularmente, realizar simulações de ataque e manter os processos simples e eficientes.
Em breve, plataformas de segurança com IA serão capazes de orquestrar etapas da resposta ao ransomware, ajudando a minimizar o erro humano e fornecendo insights sobre onde os esforços devem ser concentrados. No fim das contas, porém, cibersegurança é uma questão de definir prioridades. E, para retornar à equação do início: enfrente as ameaças de hoje para estar mais bem preparado para os desafios de amanhã.
Gustavo Leite é vice-presidente da Cohesity para a América Latina e o Caribe






