Vivemos uma era em que celebramos o direito ao erro como força motriz das empresas mais inovadoras. Paradoxalmente, no setor elétrico, acostumamo-nos a tratar falhas de equipamentos, sistemas e erros humanos com a máxima gravidade, como algo a ser evitado a qualquer custo. Essa dualidade impõe um desafio profundo: como manter viva a chama da inovação sem renunciar ao rigor e à disciplina imprescindíveis a uma operação que sustenta o funcionamento do país?
Buscar uma solução passa, necessariamente, pela construção de uma organização ambidestra – capaz de favorecer a liberdade criativa ao mesmo tempo em que resguarda a excelência operacional. Nesse contexto, promover ambientes em que a inovação floresça sem comprometer a confiabilidade do sistema elétrico é imperativo, pois cada avanço tecnológico carrega consigo o peso da responsabilidade social e econômica do setor.
A cultura de inovação, por sua natureza, exige tolerância à falha. É por meio da experimentação – e dos tropeços inevitáveis nesse caminho – que emergem as soluções realmente transformadoras. Permitir que equipes testem, aprendam, aprimorem e explorem alternativas é fundamental para o progresso. Contudo, essa abertura não pode se confundir com permissividade ou negligência. O desafio reside em evitar que o incentivo à experimentação se transforme em uma desorganização corporativa, onde a base técnica é esquecida.
Aqui, uma distinção sutil revela-se fundamental: é preciso tolerar falhas, e não simplesmente erros. Compreender essa diferença é vital. Em um recente estudo publicado pela Revista FAPESP, o pesquisador Leonardo Gomes oferece uma definição que corroborou com minha definição pessoal: o erro se manifesta quando o caminho é conhecido (sei o que fazer e qual resultado esperar), as normas estão estabelecidas e, mesmo assim, por desatenção ou julgamento inadequado, o resultado foge ao planejado.
Já a falha surge quando estamos diante do desconhecido (não sei o que fazer, formulo uma hipótese e a testo), experimentando novos caminhos, e o desfecho não corresponde às expectativas. Nesse contexto, a falha não apenas é admissível – ela é desejável. Representa o aprendizado contínuo e a coragem de explorar novas fronteiras.
Portanto, a falha, nesse contexto, representa o compromisso com a busca por respostas inéditas. O erro, por outro lado, aponta para descuidos e negligência em processos já consolidados. Compreender e disseminar essa diferença é a chave para cultivar uma mentalidade inovadora, sem prescindir da disciplina, do rigor e da segurança, pilares essenciais ao setor elétrico.
Não se trata de tolerar falhas, mas valorizar o aprendizado genuíno. A verdadeira ameaça à inovação não está nas tentativas malsucedidas, mas na ausência de processos estruturados para refletir, analisar e incorporar lições a partir de cada experiência. Uma gestão inovadora deve estimular hipóteses, testar em ambientes controlados e promover ciclos constantes de aprimoramento. Cada erro, então, se converte em um insumo precioso. O senso crítico deve permear cada etapa do processo, orientando decisões sobre investir, acelerar ou abandonar ideias de forma célere, seletiva e estratégica.
O setor elétrico, como todo segmento essencial à sociedade, está diante de uma encruzilhada: precisa zelar pela excelência operacional consolidada enquanto estimula a criatividade e o progresso. Isso só será possível com ambientes em que a falha não seja punida, mas reconhecida como uma etapa do processo de amadurecimento. Uma gestão madura compreende que a excelência nasce do esforço constante para melhorar, da coragem de experimentar e, sobretudo, da humildade em aprender com cada tentativa – bem-sucedida ou não.
Ao equilibrar com maestria disciplina operacional e a inovação permanente, o setor elétrico se habilita a enfrentar, com resiliência, os desafios do presente e a construir um futuro ainda mais inovador, seguro e eficiente. Essa ambidestria é o alicerce de uma energia que não apenas ilumina cidades, mas inspira transformações.
Rui Chammas é diretor-presidente da ISA ENERGIA BRASIL






