Trabalhar em uma base de pesquisa na Antártida pode ser mais arriscado do que encarar o frio extremo. Um relatório da National Science Foundation (NSF) revelou uma crise de recursos humanos em estações mantidas pelo programa norte-americano US Antarctic Program (USAP), com índices alarmantes de assédio sexual, agressões e episódios de violência.
Segundo reportagem do Futurism, 40% dos participantes de uma pesquisa confidencial afirmaram ter sofrido ao menos um incidente de assédio ou agressão entre 2022 e 2024, e quase 70% disseram ter presenciado situações desse tipo.
Os relatos incluem desde piadas e comentários sexuais a toques sem consentimento e perseguição. O dado chama ainda mais atenção porque, ao contrário do que se imagina, não são apenas mulheres as vítimas.
O levantamento mostra que 60% dos agredidos se identificam como mulheres e 36% como homens, uma proporção mais alta de vítimas masculinas do que a registrada na média nacional dos Estados Unidos.
Apesar de a maioria dos trabalhadores ter declarado entender o que caracteriza assédio ou agressão, menos de 85% afirmaram saber como registrar uma denúncia formal. Isso se reflete nos números: 64% dos que presenciaram abusos conversaram com alguém sobre o assunto, mas só 25% fizeram um registro oficial. Para especialistas, o resultado expõe falhas graves do sistema de proteção e uma cultura organizacional incapaz de dar resposta ao problema.
Terceirização e isolamento ampliam riscos
Parte da explicação está no modelo de contratação do USAP. Durante o verão, até dois terços dos trabalhadores são terceirizados por empresas privadas, e no inverno essa proporção chega a 90%. Na prática, significa que a maioria dos funcionários não responde diretamente à NSF, mas a empresas que buscam manter seus contratos, muitas vezes priorizando questões de responsabilidade jurídica em detrimento da segurança dos empregados.
O Futurism ouviu um eletricista que trabalhou na estação Amundsen–Scott, no Polo Sul, operada o ano todo. Ele contou que a base, que reúne cerca de 150 pessoas no verão e 50 no inverno, sofre com alta rotatividade, decisões tomadas à distância por gestores nos Estados Unidos e falhas constantes de comunicação, já que a conexão por satélite é intermitente.
Em muitos casos, trabalhadores punidos ou demitidos precisam permanecer meses confinados no mesmo ambiente que seus agressores até que o clima permita a chegada de aviões.
O funcionário disse não ter presenciado episódios de violência sexual, mas relatou um ambiente de desorganização e problemas recorrentes de gestão. Entre os incidentes que citou estão uma briga de Natal que terminou em evacuação médica, a visita de investigadores do governo para apurar denúncias de abuso e a morte de dois técnicos de manutenção.
Um ambiente marcado pelo caos
As condições extremas do continente agravam os problemas. O isolamento e a demora para que qualquer medida seja efetivada fazem com que vítimas de intimidação ou assédio convivam por meses com os agressores. Mesmo decisões administrativas, como afastamentos ou demissões, esbarram no fato de que não há como retirar uma pessoa das instalações até a retomada dos voos na primavera.
Para especialistas, os números da pesquisa da NSF escancaram uma crise estrutural. Ao mesmo tempo em que a Antártida é vital para a ciência climática e geológica, os relatos mostram que trabalhadores são submetidos a um ambiente de risco físico e psicológico permanente.
Como resume o eletricista ouvido pelo Futurism, “tudo parecia incrivelmente desorganizado”: um diagnóstico que, à luz do relatório oficial, agora ganha dimensão sistêmica.






