Em um evento recente sobre decisões difíceis, tirei ao acaso uma mensagem: “Onde não há conselhos, os projetos saem vãos. Na multidão de conselheiros, eles se confirmarão.” (Provérbios 15:22).
Em minutos, essa coincidência acendeu perguntas essenciais: por que decisões melhores emergem quando ouvimos mais vozes? Como a escuta amplia a criatividade e reduz pontos cegos? Quais os riscos de confiar apenas na intuição?
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Interpretei o provérbio para além do contexto religioso: como uma sabedoria prática ancestral, como um patrimônio cultural. Ele nos ensina que decisões não devem ser tomadas isoladamente. Consultar outras pessoas amplia horizontes, previne erros e traz perspectivas novas.
No contexto corporativo, esse olhar compartilhado é fundamental para transformar ideias em inovação e funciona como uma bússola: da governança aos advisory boards, da voz do cliente aos times multidisciplinares, usar a inteligência coletiva é decidir melhor e inovar com menos desperdício.
Antes de ser um livro bíblico, Provérbios pode ser entendido como uma tecnologia social. Embora atribuído a Salomão, o livro foi sendo tecido ao longo de séculos no Oriente entre os séculos X e IV a.C. Naquele tempo, as grandes decisões de família, negócios, da própria cidade, eram debatidas à porta, diante de anciãos e conselheiros.
O propósito era direto: condensar aprendizados em frases curtas para reduzir erros, orientar negócios e preservar relações. Em outras palavras, ouvir muitos era uma tecnologia social de governança.
E qual a ponte com a inovação e a criatividade nos dias de hoje? A lógica é a mesma, vestida de contemporaneidade. Criatividade raramente nasce do zero, ela recombina repertórios. Quando líderes abrem espaço para diferentes vozes, equipes, clientes, parceiros, ampliam hipóteses e aceleram a experimentação. A antiga “multidão de conselheiros” hoje se traduz em advisory boards, comunidades de clientes e times multidisciplinares, base de métodos como o design thinking.
Hoje a inteligência artificial amplia essa dinâmica: atua como curadora veloz, ajudando a filtrar critérios, simular cenários e oferecer índices de previsibilidade mais ajustados. É uma espécie de futurologia prática. De primeiro quilate. Mas, no centro de tudo, permanece a mesma bússola dos tempos antigos: a qualidade da pergunta que fazemos.
Não é possível conselhos sem perguntas. E a pergunta é tarefa humana e não da máquina. Ignorar opiniões externas aumenta o risco de decisões incompletas. Já ouvir outros pode revelar pontos cegos e antecipar tendências.
Empresas que cultivam esse hábito descobrem oportunidades de mercado e criam produtos disruptivos, acelerando recuperações ou posições. É como na biologia, evolução com o menor desgaste é o que leva ao aperfeiçoamento e diversidade. E a diversidade gera criatividade. Startups e multinacionais cresceram ao ouvir colaboradores, clientes e parceiros.
O caso da LEGO, que co-cria produtos com sua comunidade global via LEGO Ideas, mostra como a escuta ativa pode gerar sucessos comerciais. No Brasil, empresas como a Natura destacam-se pela cocriação de soluções sustentáveis com fornecedores e consumidores.
Em tempos de pós-verdades, nem todo conselho é útil. O diferencial está no discernimento: ouvir muitos, mas escolher com critérios embasados em experiências, dados, visão estratégica e transformar ideias em inovação sustentável, sem cair em modismos passageiros.
O desafio inclui também ética, royalties e o acompanhamento do estado da arte, algo que países como Vietnã, Indonésia e China têm feito, enquanto o Brasil corre o risco de ficar para trás.
Pesquisas globais em gestão mostram que empresas que estimulam a inovação colaborativa apresentam melhor desempenho. Relatórios da McKinsey e da Harvard Business Review indicam forte correlação entre diversidade, escuta coletiva, inovação e aumento de lucratividade.
Ou seja, quando líderes realmente ouvem suas equipes e consumidores, os resultados financeiros crescem. Empresas que cultivam estas práticas têm até 4,6 vezes mais chance de engajar e reter talentos (Gallup) e de obter um aumento relevante em satisfação e inovação com o time (Deloitte Human Capital Trends), fatores diretamente ligados ao crescimento de faturamento e valorização da marca.
No Brasil, o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa aponta que conselhos participativos e diversos aumentam a confiança dos investidores, gerando maior valorização de mercado. Ouvir múltiplas vozes não é só cultura, é estratégia de negócios: fortalece a liderança, os resultados financeiros e a saúde da organização.
E como utilizar os provérbios no dia a dia? Esse princípio é prático e aplicável em diferentes contextos:
- no trabalho: decisões estratégicas, como o lançamento de um novo produto ou a mudança de carreira, ganham força ao incluir mentores, pares e equipes diversas;
- na vida pessoal: consultar pessoas de confiança em escolhas sobre finanças, saúde, parentalidade ou relacionamentos pode trazer clareza e segurança, sem substituir o julgamento individual;
- em projetos: empreendedores que buscam conselhos de profissionais experientes evitam erros, aceleram processos e ampliam a capacidade de inovar.
Além das reflexões, algumas ações concretas e dicas que podem ajudar líderes a construir um verdadeiro senso de coletivo, estimular a criatividade e garantir que os projetos se tornem sãos, e não vãos:
- Criar rituais de escuta: reservar momentos em reuniões para ouvir todos os pontos de vista, inclusive das vozes mais silenciosas.
- Valorizar o feedback contínuo: incentivar a equipe a dar retorno sobre decisões e processos, mostrando que cada contribuição é considerada.
- Conectar-se com o cliente: abrir canais diretos para ouvir consumidores e traduzir suas necessidades em melhorias reais.
- Diversificar conselhos: incluir pessoas de diferentes áreas, idades, formações e origens nos processos de decisão.
- Dar retorno: mostrar como as ideias recebidas foram aplicadas ou ajustadas, reforçando a confiança no processo coletivo.
A filosofia valoriza a escuta e a sabedoria coletiva. Para o empirista britânico Francis Bacon, “a experiência é a mãe das coisas”; o pragmatismo do norte-americano William James nos recorda que o valor de uma ideia está em suas consequências práticas, tal como a inovação que surge da cocriação e da prototipagem rápida. E para o filósofo e pedagogo americano John Dewey, a democracia se fortalece ao ouvir múltiplas vozes.
A neurociência e a saúde mental também reforçam essa perspectiva. Estudos em neurociência social mostram que o cérebro humano é moldado pelo contato e pelo diálogo, e que práticas de escuta reduzem o estresse e aumentam a sensação de pertencimento.
Pesquisadores como o cientista Antonio Damasio demonstram que emoção e razão são inseparáveis nas decisões, e que ambientes de confiança favorecem a clareza mental. Do ponto de vista da saúde mental, criar espaços de acolhimento e de escuta coletiva fortalece a resiliência emocional de equipes e líderes, prevenindo burnout e favorecendo inovação.
Quando um líder dá um passo atrás para ouvir, a equipe dá dois à frente para criar. É por isso que o provérbio “Onde não há conselhos, os projetos saem vãos. Na multidão de conselheiros, eles se confirmarão” mostra-se cada vez mais atual. Ele não apenas inspira práticas de gestão e inovação, mas também reforça que ouvir colaboradores, conselheiros e consumidores é fonte de saúde organizacional, criatividade e crescimento.
Em um mundo complexo e em rápida transformação, líderes que cultivam esse senso de coletivo não apenas evitam erros, mas também constroem organizações mais humanas e inovadoras. A sabedoria coletiva é, portanto, um ativo estratégico: transforma projetos em conquistas sólidas, empresas em comunidades de confiança e decisões em caminhos de prosperidade compartilhada.
E volto à cena da caixa de mensagens do inicio: uma frase curta bastou para inspirar que boas decisões nascem onde há espaço para ouvir. Quando essa escuta vira hábito, as relações se tornam mais humanas e evoluímos.
*Rubens Harb Bollos é médico, pesquisador, mentor e palestrante. Mestre e Doutor (Ph.D) em Ciências da Saúde pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e Pós-Doutorado em Biologia do Desenvolvimento (USP/ICB)






