Moeda norte-americana sobe 1,35% com busca global por ativos diante da escalada do conflito no Oriente Médio; Ibovespa recuou 0,9%, a 177.653 pontos, acumulando perdas de 6% desde o início de março
SÃO PAULO, SP () – O dólar avançou 1,35% nesta sexta-feira (13) e encerrou a semana cotado a R$ 5,316, com investidores atentos à possibilidade de o conflito no Oriente Médio escalar ainda mais nos próximos dias.
A valorização foi global. O índice DXY, que compara a moeda norte-americana a uma cesta de seis divisas fortes, avançou 0,72%, a 100,47 pontos -maior valor desde maio do ano passado, quando a primeira onda do tarifaço do presidente Donald Trump elevou a procura por ativos de segurança.
A aversão ao risco também abateu Bolsas de Valores em todo o mundo. No Brasil, o Ibovespa recuou 0,9%, a 177.653 pontos, acumulando perdas de 6% desde o início de março.
Em Wall Street, o S&P500 caiu 0,66%; Nasdaq e Dow Jones, 0,93% e 0,25%, respectivamente. Na Europa, o índice de referência Euro STOXX 600 recuou 0,5%, e todas as principais praças regionais ficaram no vermelho. Já na Ásia, o japonês Nikkei perdeu 1,2%; o chinês CSI300, 0,39%.
As perdas nos mercados acionários sucedem a entrevista de Trump à Fox News nesta sexta, quando afirmou que irá “atacar o Irã com muita força na próxima semana”.
Já o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou que as “Forças Armadas estão firmemente determinadas a dar uma lição memorável ao inimigo”.
“Não podemos aceitar que os americanos falem de diálogo e cessar-fogo de tempos em tempos, apenas para nos vermos confrontados com a repetição desses crimes e dessa guerra”, disse Esmail Baghai, referindo-se ao conflito anterior, ocorrido em junho passado, que terminou após 12 dias de combates.
Sem sinais de arrefecimento, o conflito espalha temores de gargalos no mercado de energia -o Estreito de Hormuz, na costa iraniana, é responsável por 20% de todo petróleo e gás global-, que podem causar um repique inflacionário global.
“A persistência da guerra no Oriente Médio mantém volatilidade no preço do petróleo, com o Brent orbitando novamente a faixa de US$ 100 por barril, o que reforça temores de pressões inflacionárias a nivel global e sustenta a busca por ativos considerados mais seguros, como a moeda americana”, diz Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.
Ao mesmo tempo, o movimento também reflete uma reprecificação das expectativas para a política monetária nos Estados Unidos, cuja taxa de juros pauta decisões de investimento em todo o mundo.
A perspectiva de alta na inflação norte-americana reforça a leitura de que o Federal Reserve não cortará as taxas tão cedo, fortalecendo os Treasuries (títulos do Tesouro dos EUA) e, por consequência, o dólar.
No Brasil, o BC (Banco Central) interviu no mercado de câmbio através de um “casadão” -leilões simultâneos de venda de dólares no mercado à vista e de negociação de contratos de swap cambial reverso.
O “casadão” eleva a liquidez no mercado à vista em momentos de estresse como o atual. Porém, o efeito do “casadão” sobre as cotações do dólar é, na prática, nulo, já que o BC vendeu US$ 1 bilhão em uma ponta e comprou US$ 1 bilhão em outra.
Países também têm tentado intervir nas cotações dos preços do petróleo. Trump, por exemplo, afirmou que os EUA escoltarão, se necessário, embarcações pelo Estreito de Hormuz, e também emitiu uma isenção de 30 dias para produtos petrolíferos da Rússia, que enfrenta sanções desde o início da guerra da Ucrânia.
Na quarta, a AIE (Agência Internacional de Energia) ainda aprovou a liberação de 400 milhões de barris de suas reservas, o maior movimento desse tipo na história da organização que reúne 32 países, incluindo os Estados Unidos. O secretário de Energia norte-americano, Chris Wright, prometeu que 172 milhões de barris serão disponibilizados “a partir da próxima semana”.
Mas, para analistas, a medida é vista como um paliativo. “Na linguagem das mesas de operações, a liberação da AIE é o equivalente a apontar uma mangueira de jardim para um incêndio em uma refinaria”, comentou Stephen Innes, da SPI Asset Management.
A AIE afirmou que a interrupção no fornecimento já pode ser a maior da história. Em relatório mensal, a agência afirmou que a oferta global deve cair em 8 milhões de barris por dia em março como consequência do estrangulamento do Estreito de Hormuz, via por onde passam 20% de todo o petróleo e gás do mundo.
Países do Golfo do Oriente Médio, incluindo Iraque, Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, reduziram a produção da commodity em pelo menos 10 milhões de barris por dia. Segundo a AIE, o volume equivale a 10% de toda a demanda mundial.
Sem uma rápida retomada dos fluxos de transporte, essas perdas devem aumentar. “A produção de upstream paralisada levará semanas e, em alguns casos, meses para retornar aos níveis anteriores à crise, dependendo do grau de complexidade do campo e do tempo para que os trabalhadores, equipamentos e recursos retornem à região”, disse a agência.
“Se preparem para o petróleo a US$ 200 o barril, porque o preço depende da segurança regional que vocês desestabilizaram”, disse o porta-voz militar iraniano Ebrahim Zolfaqari.
Em paralelo, os Estados Unidos anunciaram uma investigação comercial contra 60 países, incluindo o Brasil, para analisar se produtos fabricados com trabalho forçado estão entrando no mercado americano.
A base legal usada para a investigação é a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que permite aos EUA agir contra práticas comerciais injustas ou discriminatórias que prejudiquem o comércio americano.
A investigação, na prática, permite que os Estados Unidos imponham tarifas sobre quem violar acordos comerciais, o que pode deixar o Brasil sob ameaça de novas cobranças, de sobreaviso, por tempo indeterminado. As normas dos EUA exigem que o país alvo da investigação seja ouvido e apresente argumentos. O processo costuma durar 12 meses a partir do início da apuração.
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Fonte: Gazeta Mercantil – Economia





