Usado até como terapeuta, mesmo com especialistas alertando para os riscos, o ChatGPT ganhou mais uma função entre os jovens: a de tarólogo. Vídeos no TikTok acumulam milhares de visualizações e centenas de curtidas, mostrando tiragens de tarô feitas com a plataforma e tutoriais ensinando como realizar leituras com a IA.
Interpretações de mapas astrais, previsões sobre estudos e até relacionamentos estão entre as perguntas mais frequentes à ferramenta. Apesar da popularidade, especialistas recomendam cautela. O ChatGPT não possui compreensão contextual sobre os usuários nem capacidade de análise emocional ou simbólica.
“O ChatGPT é muito superficial. Ele até pode mostrar padrões, lembrar de alguns detalhes simbólicos, mas não consegue administrar o contexto humano de uma consulta”, explica a artista e taróloga Julia Anadam.
Para ela, a prática do tarô envolve não apenas a interpretação dos símbolos, mas também a sensibilidade de quem realiza a leitura. A experiência de um tarólogo profissional permite direcionar as cartas de acordo com as necessidades individuais de cada cliente, tornando a leitura mais coerente, eficiente e precisa.
“Cada tarólogo traz sua própria bagagem. Eu, por exemplo, atendo muitas pessoas que são artistas, porque sei traduzir os símbolos do tarô de um jeito que faça sentido para esse universo”, afirma. Anadam já testou a plataforma em tiragens. Segundo ela, o ChatGPT tem conhecimento superficial das cartas, mas não analisa aspectos essenciais da leitura simbólica.
“Ele entende o básico, como o que significa o naipe de copas ou a carta da Lua, mas quando precisa cruzar informações, se confunde. Uma carta pode falar de confiança, mas também de um relacionamento socialmente aceito, depende da situação. A máquina não percebe isso”.
Segundo a taróloga, o ChatGPT possui uma boa base de dados, mas não consegue oferecer acolhimento emocional e humano, essenciais para uma tiragem. Muitos clientes chegam fragilizados, em busca de conforto e orientação, e a IA, sem capacidade contextual ou análise individual, pode fornecer direções equivocadas.
“Se a pessoa está desestabilizada, ansiosa ou com medo, o tarólogo precisa saber acolher. O ChatGPT não tem essa sensibilidade — nem energética, nem espiritual, nem emocional”, explica.
Perguntas precisas para tiragens certeiras
A forma como as perguntas são feitas é peça-chave para direcionar as cartas ao contexto de cada cliente. “No tarô, a forma de perguntar é tudo. Uma coisa é perguntar ‘estou sendo traída?’, outra é perguntar ‘como posso viver melhor essa relação?’. São sutilezas que o ChatGPT não capta”, comenta Anadam.
Mesmo com treinamentos para tornar os prompts mais precisos, a taróloga acredita que a IA não alcançará a efetividade de um profissional, que entende contexto, análise individual e especificidades energéticas. “Mesmo para o ChatGPT dar uma resposta boa, o usuário teria que entender a dinâmica do tarô, saber formular a pergunta perfeita. E quem entende isso geralmente não precisa da máquina”.
Os riscos da prática e condutas éticas
Ao depositar confiança na IA, jovens permitem que uma máquina, capaz apenas de leituras básicas, influencie decisões importantes de suas vidas. Para Anadam, isso representa um risco real, com consequências concretas.
“O risco maior é quando a pessoa faz perguntas sérias, de carreira, relacionamento, decisões de vida, e segue o que o ChatGPT diz. Ele erra como em qualquer outra área. Ele pode induzir alguém a tomar decisões erradas, sem base real”.
Assim como em sessões de “terapia” com a IA, tiragens de tarô feitas pela ferramenta carecem de responsabilidade ética. “O tarólogo também erra, claro, mas temos acompanhamento ético, supervisão e possibilidade de consulta com profissionais mais experientes. Um bom tarólogo nunca toma decisões pelo cliente, apresenta cenários e caminhos possíveis — muito diferente do ChatGPT, que às vezes já chega dizendo o que você deve fazer”, afirma.
Trabalho humano e tecnologia lado a lado
Apesar do crescimento do uso do ChatGPT, Anadam acredita que a IA e o tarô humano podem caminhar lado a lado. Com seu conhecimento básico sobre as cartas, o chatbot pode servir ao profissional como um dicionário.
Ainda assim, a taróloga não acredita que a profissão será substituída. “Não acho que o ChatGPT seja um risco para quem tem experiência. Os jovens vão usar, mas com o tempo vão perceber que falta algo ali”.
Para ela, em cerca de cinco anos, a IA pode evoluir a ponto de captar contextos mais sutis. “Mas, por enquanto, ela ainda não tem a sensibilidade que o tarô exige”, conclui.






