O bilionário Peter Thiel, conhecido por seu papel como investidor no Vale do Silício e por sua influência na política conservadora dos Estados Unidos, classificou os críticos da inteligência artificial como “legionários do Anticristo”.
A declaração foi feita em uma série de palestras privadas, segundo reportagem do The Washington Post, baseada em gravações de quatro encontros realizados em San Francisco entre setembro e outubro.
As palestras, promovidas por um grupo cristão chamado ACTS 17, conectaram elementos religiosos e tecnológicos numa narrativa que denuncia os esforços de regulamentação da tecnologia como parte de uma agenda apocalíptica.
- Muito além da Casa Branca: bilionários da tecnologia se organizam para redesenhar o estado e a cultura nos EUA
- Fundada por bilionário próximo a Trump: conheça a Palantir, gigante dos dados que atua em soluções de defesa e imigração
- Bilionário Peter Thiel revelou que será preservado criogenicamente após a morte
O Anticristo como metáfora moderna
Durante os encontros, Thiel argumentou que, no século XXI, o Anticristo não seria mais um cientista ambicioso ou um agente do caos, mas sim aqueles que tentam impedir o progresso tecnológico, incluindo a ativista ambiental Greta Thunberg e o pesquisador Eliezer Yudkowsky, ambos críticos do avanço descontrolado da IA. “No século XXI, o Anticristo é um ludita”, afirmou Thiel, segundo as gravações revisadas pelo jornal americano.
Thiel, que chegou a financiar pesquisas de Yudkowsky no passado, afirmou agora sentir-se envergonhado pela associação, classificando o pesquisador como “desequilibrado”.
As palestras também apresentaram a visão de Thiel sobre os riscos de uma governança global e de um suposto controle excessivo sobre a tecnologia. Segundo ele, propostas para regular a inteligência artificial evocam imagens bíblicas de um governo mundial dominado por uma figura apocalíptica. “Sem o contexto bíblico, você nunca vai achar isso assustador o suficiente”, disse o bilionário.
Essa retórica reflete uma tendência mais ampla de aproximação entre certos setores do setor de tecnologia e o cristianismo conservador nos Estados Unidos, especialmente após a reeleição do presidente Donald Trump. Thiel é próximo de membros da atual administração, como o vice-presidente JD Vance e o conselheiro científico da Casa Branca, Michael Kratsios.
Críticas a Bill Gates e outros nomes do setor
Além de atacar os críticos da IA, Thiel mencionou outros nomes influentes. Chamou o investidor Marc Andreessen de “propagandista de jargão do Vale do Silício”, ao comentar o manifesto techno-otimista publicado por ele. Sobre Bill Gates, disse que, embora o considere uma figura “horrível”, ele não seria o Anticristo.
A respeito de Trump, Thiel desafiou seus críticos liberais a provarem que o ex-presidente seria essa figura apocalíptica, afirmando que consideraria esse argumento se feito de maneira “racional e sincera”.
Nas palestras, Thiel também criticou a crescente fiscalização sobre o setor financeiro global. Afirmou que há uma “máquina incrível de tratados fiscais, vigilância financeira e sanções” que ameaça a autonomia de indivíduos ricos. Disse ainda ter aconselhado Elon Musk a não doar sua fortuna à filantropia, como propõe o movimento Giving Pledge, alertando que “US$ 200 bilhões poderiam ir parar em ONGs de esquerda escolhidas por Gates”.
Um novo elo entre fé e inovação
As palestras de Thiel ilustram como a tecnologia, a religião e a política estão cada vez mais entrelaçadas no debate público americano. O ACTS 17, grupo responsável pelos eventos, defende a inserção de valores cristãos no setor de tecnologia. Fundado por Michelle Stephens, esposa de um sócio da empresa de investimentos de Thiel, o grupo tem promovido encontros entre líderes cristãos e empresários do setor.
O movimento ganha força em um momento em que discussões sobre os limites éticos da inteligência artificial se intensificam em todo o mundo, com governos tentando criar normas de segurança e empresas buscando evitar restrições que afetem sua competitividade.






