Em um mundo onde ser adulto geralmente envolve estresse, correria e preocupações, uma tendência tem trazido mais leveza ao cotidiano e transformado o mercado de brinquedos: o crescimento nas vendas de jogos de tabuleiro, de cartas e colecionáveis aos ‘kidults’, adultos que buscam na infância referências para suas escolhas de consumo.
Segundo dados da Circana, empresa global de tecnologia de dados que monitora o comportamento do consumidor, o setor de brinquedos nos EUA teve o crescimento mais acelerado entre todos os segmentos monitorados no início de 2025 — e quem puxou essa alta foram os adultos. As vendas voltadas para maiores de 18 anos cresceram 12% no primeiro trimestre, movimentando US$ 1,8 bilhão, com destaque para cartas colecionáveis de Pokémon e esportivas, blocos de construção como Lego e figuras de ação.
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No Brasil, o movimento é semelhante: a categoria de colecionáveis, incluindo cartas de Pokémon, cresceu 18% nos últimos 12 meses, três vezes mais que o setor como um todo. De acordo com Célia Bastos, diretora executiva da Circana, a indústria varejista é muito esperta para atingir esse público especificamente.
Para o adulto que coleciona, quanto mais raro e mais difícil ter aquele modelo, melhor. Então a indústria gera essa necessidade por meio de quantidades limitadas, que acabam esgotando rapidamente”, exemplifica.
A pandemia contribuiu significativamente para potencializar esse fenômeno. Por todo mundo estar em casa e precisar de uma atividade durante o isolamento, os adultos viram nos jogos uma forma de escapismo. Como consequência, o comércio online viu suas vendas de brinquedos e jogos saltarem.
Foi o caso da Bravo Jogos, loja especializada em revenda de jogos de tabuleiro que nasceu em 2016 como e-commerce e, um ano depois, inaugurou sua loja física em Santo André, no ABC Paulista. Segundo o fundador, Emerson Moreira, a pandemia não só impulsionou as vendas da Bravo, como o público mudou.
“Muitos adultos nos procuraram em busca de jogos de tabuleiro clássicos como ‘Banco Imobiliário’ e ‘Jogo da Vida’, pegaram gosto pelo passatempo, e passaram a comprar outros tipos de jogos como os de cartas, mesmo após o término do isolamento social”, conta.
Atualmente, a loja física da Bravo Jogos fatura, em média, R$ 80 mil ao mês e a online, R$ 500 mil. À título de curiosidade, o jogo mais caro vendido por lá é o ‘Blue Heaven’, RPG com elementos de ação e hack and slash, ambientado em um universo cyberpunk futurista e decadente. Ele custa R$ 2 mil.
Consumo nostálgico
A nostalgia, sentimento de carinho ou saudosismo por algo que aconteceu no passado, também pode explicar a tendência. Muitas pessoas encontram conforto em hábitos que remetem a tempos mais simples, e o consumo nostálgico também pode ser uma forma de aliviar o estresse do dia a dia e deixar a rotina um pouco mais leve.
Sentir-se nostálgico cria uma conexão pessoal com a sua trajetória de vida, além do impacto social pelo senso de pertencimento, criando laços sociais que em uma sociedade são cada vez menos frequentes”, afirma Diogo Conque, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS) doutorado em Psicologia em Consumidor.
Segundo ele, a exploração da nostalgia no consumo é um fenômeno gigante. Em outros países, principalmente na Europa, as pessoas saem para jogar jogos de tabuleiro com muita frequência. “Quando estudei na Holanda por um ano, todas as saídas do pessoal da universidade envolviam jogos. Era difícil sairmos para ir para o bar, beber e jogar conversa fora, como acontece aqui no Brasil”.
No caso de Dahtri Cardoso, diretor de operações na Pagsmile e jogador assíduo desde 2018, o fator nostalgia não foi o que o motivou a jogar. Sempre fui uma pessoa que jogou jogos, indiferente da mídia (digital ou analógica). A nostalgia bate sim, quando um jogo de tabuleiro é lançado com temas da minha época de criança, como MegaMan, Scooby Doo e coisas do tipo, mas é mais o tema do que o jogo em si”, diz.
O jogador de 37 anos ressalta que o adulto que joga como hobby é bem diferente daquele que joga para se divertir de vez em quando, e mais exigente com a qualidade dos produtos. De acordo com Cardoso, existe uma grande diferença entre o mercado de massa e o mercado de hobby.
“Enquanto no mercado de massa são vendidos jogos e brinquedos com preços mais acessíveis e feitos de materiais menos resistentes, no mercado de hobby, os jogos de tabuleiro e de cartas são mais caros, mas com peças e acabamento superiores, são os chamados jogos de tabuleiro modernos”, afirma.
Ao contrário dos jogos de tabuleiro clássicos, onde os jogadores contam com a sorte para ganhar, dependendo dos números obtidos nos dados lançados, nos jogos modernos existe uma estratégia que guia os movimentos. “É muito mais a tática, o pensamento estratégico, do que ser guiado pela sorte”.
Cardoso não só tem uma cristaleira na sala de seu apartamento repleta de jogos de tabuleiro, de cartas e colecionáveis – hoje são 53 jogos, mas já chegaram a 100 –, como também já participou de diversos torneios. Segundo ele, seus gastos com a compra de jogos de tabuleiro e de cartas ao longo dos últimos anos devem ter superado R$ 10 mil.
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