Marc Benioff, fundador e CEO da Salesforce, convidou Sundar Pichai para fechar o Dreamforce 2025 nesta quinta-feira (16), em São Francisco. Em um diálogo que combinou reverência e tensão, o encontro entre os dois CEOs simbolizou um momento de virada para a indústria: o ano em que a inteligência artificial deixou de ser promessa e se tornou disputa aberta por poder tecnológico.
Durante quarenta minutos, Pichai revisitou a própria trajetória, apresentou previsões ousadas e repetiu um mantra, como se quisesse se convencer de que era verdade: o Google continua à frente, mesmo quando parece estar apenas reagindo.
O CEO falou em superinteligência digital como parceira da humanidade até 2035, anunciou que a criptografia global precisará se adaptar ao avanço quântico em até cinco anos e sugeriu que os óculos inteligentes voltarão sob nova forma.
O subtexto foi claro: depois de ver a OpenAI conquistar o imaginário do público, o Google tenta voltar a controlar a narrativa.
“A janela mudou”: o trauma do ChatGPT e o contra-ataque do Gemini
Ao relembrar o lançamento do ChatGPT, em 2022 Pichai tentou desfazer a (falsa) impressão de que o Google havia sido pego de surpresa. Disse que a empresa já trabalhava com modelos desde 2017 e citou o artigo técnico Attention Is All You Need como base de toda a revolução generativa. Lembrou que modelos como BERT e MUM já melhoravam a busca e que o Google Fotos foi o primeiro produto nativo de IA da companhia.
A argumentação é técnica e verdadeira, mas também defensiva. O Google criou a arquitetura que viabilizou a atual onda de IA, mas hesitou em colocá-la no mercado. Pichai atribuiu a demora a um senso de responsabilidade. “Não tínhamos um nível de maturidade que nos permitisse lançar aquele produto da forma como o Google exige”, afirmou. “Mas, quando o ChatGPT apareceu, eu soube que a janela havia mudado.”
Desde então, o Google se reorganizou. Uniu o Brain e o DeepMind, lançou a linha Gemini e anunciou uma estratégia full stack, completa, que vai de chips a modelos. “O progresso foi extraordinário”, disse Pichai. “E 2026 será ainda mais empolgante que 2025.”
A frase ecoa o otimismo habitual dos keynotes do setor, mas também revela o esforço de reconstrução. No pós-ChatGPT, o Google tenta se mover com a velocidade das startups sem perder o verniz institucional que o distingue.
Entre o futuro quântico e a fragilidade da criptografia
Quando Benioff levou a conversa à computação quântica, Pichai abriu outro campo de promessa. Disse acreditar que computadores quânticos comercialmente viáveis estarão disponíveis em dez anos e que a criptografia digital precisará se adaptar. “Em três a cinco anos, teremos de nos ajustar ao quântico”, afirmou. “Haverá um momento de vulnerabilidade.”
A previsão é ambiciosa, mas reflete uma preocupação real de governos e bancos: o risco de que a computação quântica possa quebrar os sistemas de segurança clássicos. O Google mantém um laboratório dedicado ao tema em Santa Bárbara, e Pichai o apresentou como símbolo de uma empresa que pensa em horizontes de décadas, não de trimestres.
O raciocínio reforça a imagem de uma companhia que aposta em P&D (pesquisa e desenvolvimento), enquanto o mercado vibra com ciclos curtos. Mas também é uma forma de lembrar que, apesar da turbulência recente, o Google continua a ser o único gigante com fôlego simultâneo para investir em IA generativa e pesquisa quântica.
O retorno dos óculos e a fronteira corpo–máquina
Benioff provocou o convidado sobre o futuro dos óculos inteligentes, e Pichai respondeu sem hesitar: “O sonho do Glass nunca acabou”. Segundo ele, o que antes parecia ficção hoje encontra suporte técnico. “Agora temos IA contínua, interfaces intuitivas e multimodalidade real, com voz, visão e gestos”, afirmou.
A fala soa como tentativa de reabilitar um projeto que se tornou símbolo de fracasso. Desta vez, a promessa é que a IA permita experiências mais naturais e menos invasivas, devolvendo sentido a um conceito que parecia esgotado.
Pichai também citou avanços em interfaces cérebro-máquina e elogiou pesquisas da Neuralink e do neurocirurgião Eddie Chang, da Universidade da Califórnia, em São Francisco. Disse que alguns dos momentos mais comoventes de sua carreira foram ao ver pacientes voltando a se comunicar por meio dessas tecnologias.
O Google mantém a ambição de unir software e corpo físico, numa nova geração de dispositivos que prometem fundir percepção, contexto e ação. É uma aposta arriscada, ainda cercada de dilemas éticos e sociais, mas coerente com a lógica de aproximar a inteligência artificial do usuário.
Agentes de IA e a “empresa agêntica”
Nos minutos finais, Pichai encontrou o ponto de convergência com o anfitrião. Benioff mencionou o conceito de empresa agêntica, tema central do Dreamforce, e o CEO do Google fez a ponte com sua própria agenda. “Em 2026, vocês vão sentir a diferença”, afirmou. “Esses modelos serão realmente agentes inteligentes.”
A frase foi recebida com entusiasmo pela plateia, mas tem implicações concretas. Para o Google, a ideia de agentes de IA corporativos representa uma oportunidade de reocupar o centro da transformação digital das empresas, integrando dados, aplicações e decisões em um mesmo ecossistema. É um novo vocabulário para uma velha ambição: consolidar o Google como a infraestrutura invisível da economia digital.
O desafio é transformar a promessa em tração real. O Dreamforce serviu como palco para reafirmar que a empresa não pretende apenas acompanhar a revolução da IA, mas definir seus contornos. E, mesmo sem anunciar nada de tangível, Sundar Pichai encerrou o evento deixando claro que o Google ainda quer (e acredita poder) ditar o ritmo dessa próxima fase.
*O jornalista viajou para São Francisco a convite da Salesforce






