O escritor e teórico da mídia Douglas Rushkoff, uma das vozes mais críticas à cultura digital, foi categórico em sua palestra no KES Summit: a tecnologia não é um fim em si, nem deve servir apenas para preservar monopólios.
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Para ele, a elite do Vale do Silício trata a inovação como uma fuga da vida real e dos limites humanos. “Os líderes do setor entendem a tecnologia como uma forma de escapar das pessoas, da natureza, dos ciclos da vida, de se elevar acima da matéria suja. Mas isso, na minha opinião, é uma ‘bad trip’, disse.
Para que servem as pessoas?
Segundo Rushkoff, um dos sintomas mais visíveis desse desvio é a pergunta recorrente que recebe de executivos e áreas de RH: para que servem as pessoas? “Eu não tenho que servir para nada. Eu não preciso justificar minha existência com meu valor de utilidade. Nós somos sagrados pelo fato de termos nascido”, afirmou.
Para ele, essa inversão, onde humanos passam a ser avaliados pela utilidade em relação à tecnologia, tem raízes antigas, herdadas de um sistema econômico moldado desde a Idade Média e cristalizado na Revolução Industrial.
O autor usou exemplos históricos para mostrar como a tecnologia muitas vezes foi projetada não para libertar, mas para submeter o trabalho humano. “A linha de montagem não foi criada para produzir mais rápido, mas para que os donos de monopólios não precisassem contratar sapateiros qualificados. Ela servia para desconectar o ser humano do valor do trabalho que ele estava criando. Isso é Marx básico.”
Outro caso emblemático, segundo ele, é o do ‘dumb waiter’, pequeno elevador usado nos anos 1800 em mansões americanas para transportar comida da cozinha até o andar principal. “O ‘dumb waiter’ não estava lá para poupar o trabalho dos servos, mas para poupar o mestre e seus convidados da indignidade de ver uma pessoa escravizada, suada, trazendo a comida. Era para esconder o trabalho humano.”
Na visão de Rushkoff, a IA repete essa lógica: não elimina o trabalho indigno e, muitas vezes, próximo à servidão, apenas o empurra para mais longe. Seja nas minas de cobalto na África ou nos milhares de trabalhadores invisíveis que treinam modelos de linguagem.
Primórdios da internet e a psicodelia perdida
O autor relembrou também os anos 1990, quando acreditava pessoalmente que a internet poderia abrir caminho para um renascimento criativo. “A tecnologia digital parecia libertar a imaginação humana coletiva. Meus amigos programavam de dia na Intel e à noite ficavam acordados usando peiote, DMT e gerando fractais para mostrar em festas rave. Criávamos shareware e distribuíamos de graça, só pelo prazer de ver alguém usando.”
Ele contou que chegou a apresentar a internet para Timothy Leary, o guru da contracultura psicodélica dos anos 1960. “Ele olhou e disse: ‘Isso é mais poderoso que o ácido’. Mas Leary sempre dizia: a qualidade da viagem depende do set e do setting, da mentalidade e do ambiente em que você usa a substância. Nós começamos a internet com o set and setting da imaginação coletiva. Hoje, o set and setting é a vigilância e Wall Street. Não é de se espantar que estejamos tendo uma viagem ruim.”
Do autotune à padronização da vida
Para ilustrar como a padronização tecnológica pode esvaziar a criatividade, Rushkoff recorreu à música. “O autotune faz sentido para a Ariana Grande. Ela é um produto comercial, e uniformizar as notas ajuda a vender mais discos. Mas quando você ‘autoajusta’ James Brown, você tira exatamente o que fazia dele único: o ato de buscar a nota certa. Nós literalmente tiramos a alma da música.”
Segundo ele, o mesmo acontece quando usamos a tecnologia digital para alinhar comportamentos humanos às expectativas estatísticas: a imprevisibilidade — que é onde mora a vida — desaparece.
O Brasil como espaço de reinvenção
Em meio à crítica, Rushkoff destacou que o Brasil pode ter um papel diferenciado nesse cenário.
“Nos primeiros dias, os brasileiros me perguntavam como poderiam ser mais como os EUA. Agora, me perguntam como evitar se tornarem como os EUA. Vocês têm mais experiência em desafiar o provável. Limites criam criatividade. O trabalho agora é mudar este momento digital, de uma exploração utilitária para uma conexão sagrada.”
A parábola da foto da filha: colaboração como alternativa
O episódio aconteceu quando sua filha se formou no ensino médio e ele quis pendurar a foto de formatura na parede de casa. Ele descobriu que, por ser uma parede de gesso, precisaria de uma furadeira. A primeira reação foi pensar em comprar uma nova, o que é um típico reflexo de consumo.
Mas, em seguida, veio o raciocínio: por que não pedir emprestado ao vizinho Bob, que já tinha ferramentas em casa? “Se eu bato na porta do Bob e peço a furadeira, ele provavelmente não só me empresta como vem junto, faz o furo, fixa a moldura e ainda reboca a parede. E de repente ele está no churrasco da minha filha para celebrar a formatura. Logo, os outros vizinhos também se juntam. Aos poucos, viramos uma comunidade interdependente.”
Segundo ele, esse raciocínio foi recebido com desconfiança em uma conferência de tecnologia. “Contei essa história e alguém se levantou e disse: ‘Mas e a empresa de furadeiras?’. Como se o problema fosse que a colaboração pudesse prejudicar o modelo de negócios de quem lucra com cada casa comprando uma ferramenta própria.”
Foi nesse ponto que Rushkoff introduziu a crítica mais dura: a defesa da empresa de furadeiras não é apenas uma questão de negócios, mas de como estruturamos a sobrevivência das pessoas. “E a senhora idosa que depende dos dividendos das ações da empresa de furadeiras? E se a gente derruba esse sistema?”, me perguntaram.
A resposta dele foi direta: “Se vivemos em uma civilização onde uma senhora idosa tem que depender de dividendos de ações de uma empresa de furadeiras para viver, em vez da comunidade de pessoas que vivem com ela, estamos perdidos desde o início.”
Tornar as coisas estranhas
Ao encerrar a palestra, Rushkoff retomou um dos conceitos que o acompanham desde o início da carreira: o poder da estranheza. Para ele, apenas os “esquisitos” — artistas, outsiders, inconformados — têm a coragem de questionar pressupostos e abrir novos caminhos.
“Momentos de oscilação significam que as relações de poder podem mudar. E os estranhos, nós nos sentimos bem quando isso acontece. A minha mensagem para vocês é: tornem as coisas estranhas para que os estranhos possam fazer com que as coisas fiquem bem.”
Rushkoff defendeu que “manter-se esquisito” é mais do que uma atitude estética: é uma estratégia de sobrevivência em um sistema que tenta nivelar tudo pela média. É na imprevisibilidade, diz, que a vida pulsa: e é ali que sociedades podem encontrar alternativas ao determinismo tecnológico.
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