Este ano participei da 3ª Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos (UNOC), realizada em Nice, na França. O evento reuniu representantes de governos, empresas, academia e sociedade civil com um objetivo claro: transformar o oceano em um ativo estratégico para o desenvolvimento global.
O tema central da conferência – “Acelerar a ação e mobilizar todos os atores para conservar e usar de forma sustentável o oceano” – evidencia não apenas a urgência climática, mas também uma imensa oportunidade econômica. E é exatamente aqui que reside o ponto crucial: essa oportunidade só será plenamente viabilizada se for impulsionada pela inovação colaborativa e de maneira sustentável.
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Diversos dados apresentados ao longo da conferência reforçaram essa premissa. Para atingir o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 (“Vida na Água”), estima-se necessário um investimento anual entre 150 e 175 bilhões de dólares. Embora expressivo, esse montante é justificável diante do potencial da chamada Economia Azul.
Setores como energia oceânica, biotecnologia marinha, turismo regenerativo, pesca sustentável e aquicultura têm capacidade para movimentar trilhões nas próximas décadas. O desafio está em canalizar e articular investimentos, conhecimento e tecnologia para transformar esse potencial em prosperidade, sem repetir os erros históricos de exploração predatória e colapso ambiental em terra firme.
A inovação colaborativa é o único caminho possível para resolver essa equação. Não se trata apenas de explorar economicamente o oceano, mas de fazê-lo com inteligência, respeito aos ciclos naturais e geração de valor social. Em Nice, ficou evidente que inovação não é um luxo futurista, mas uma necessidade urgente.
Soluções baseadas na natureza, tecnologias limpas e modelos regenerativos demonstram que é possível gerar valor econômico real ao mesmo tempo em que se preservam os ecossistemas marinhos e se promove a inclusão social. Um exemplo emblemático é o avanço no uso de dados e tecnologias emergentes, como inteligência artificial, sensores marítimos, plataformas digitais e blockchain aplicados à rastreabilidade da pesca.
Essas soluções são hoje ferramentas essenciais para uma governança oceânica eficaz. Não basta monitorar: é preciso transformar dados em decisões – e decisões em impacto positivo. Inovação, nesse contexto, não se limita ao campo tecnológico, mas abrange também dimensões regulatórias, financeiras e institucionais.
Um ponto central e que precisa ser continuamente reforçado é que a Economia Azul só funcionará como alavanca de desenvolvimento se respeitar os limites ecológicos do oceano, os direitos das comunidades costeiras e os ritmos naturais que sustentam a vida marinha. Isso exige uma abordagem de inovação sistêmica, não fragmentada.
Para o Brasil, o chamado é ainda mais urgente e promissor. Com quase 11 mil quilômetros de costa, uma das maiores zonas econômicas exclusivas do mundo e uma biodiversidade marinha única, o país possui ativos incomparáveis. Para transformar esse potencial em liderança global, é fundamental ampliar os investimentos em pesquisa aplicada, estimular a inovação local, formar talentos e promover articulação efetiva entre governos, universidades, empresas e startups.
Se quisermos realmente construir um futuro econômico sustentável, não há mais tempo a perder: o oceano precisa ser tratado como parte da solução e a inovação, como principal motor dessa transformação.
*André Nunes é Partner e Managing Director da Beta-i Brasil, consultoria de inovação colaborativa global
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