O Brasil vive um momento-chave na redefinição do seu papel na economia global. Dados recentes do Índice de Transformação Digital Brasil (ITDBr) mostram que a maturidade tecnológica das empresas brasileiras avançou de 3,3 para 3,7 em 2024 — um progresso que sinaliza mais do que um movimento estatístico: revela o despertar de uma mentalidade empresarial mais aberta à inovação, à tecnologia e à transformação dos modelos de negócio.
Esse avanço é impulsionado por diversos fatores: políticas públicas estruturadas, como o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê R$ 23 bilhões em investimentos até 2027; democratização do acesso à conectividade; e, sobretudo, o reconhecimento dos líderes empresariais de que a tecnologia não é um projeto de futuro — é o alicerce da competitividade no presente.
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Os impactos já são palpáveis. Empresas que incorporam tecnologias como Internet das Coisas (IoT), inteligência artificial (IA) e automação alcançam ganhos concretos, como a redução de até 25% nas paradas operacionais por falhas. Ao conectar equipamentos, sistemas e pessoas, essas organizações elevam a eficiência, melhoram a qualidade dos produtos e se tornam mais ágeis diante das demandas do mercado.
Porém, a digitalização não ocorre de forma uniforme entre setores e regiões. Enquanto áreas como finanças, tecnologia da informação e energia apresentam estruturas digitais maduras, segmentos como saúde, agropecuária e indústria tradicional avançam de maneira mais gradual — muitas vezes, não por falta de interesse, mas por desafios específicos de infraestrutura, cultura e modelo de negócio. Isso também vale para as pequenas e médias empresas (PMEs), que compõem a maior parte do tecido empresarial brasileiro. Com um índice de maturidade de 35 (numa escala de 0 a 80), elas ainda enfrentam limitações, mas possuem enorme potencial para um salto tecnológico.
Desenha-se uma oportunidade ímpar. O Brasil pode transformar sua diversidade econômica e territorial em um ativo digital. Com a adoção de tecnologias emergentes como IA, blockchain e computação na borda, é possível aumentar a produtividade da cadeia agroindustrial, criar novos modelos de atenção primária à saúde conectada, dinamizar o varejo físico e fortalecer a indústria nacional por meio da manufatura inteligente.
A IA, por exemplo, lidera a lista de prioridades tecnológicas das empresas brasileiras, segundo a PwC. Apesar das preocupações — legítimas — com segurança cibernética e impactos sociais, o debate sobre inteligência artificial deve evoluir: de um olhar restrito aos riscos para um foco em responsabilidade, transparência e benefício coletivo. Não se trata de evitar a IA, mas de moldá-la em consonância com nossos valores e propósitos.
Neste cenário, a computação em borda (edge AI) representa um divisor de águas. Ao permitir o processamento local de dados em sensores, máquinas e dispositivos conectados, ela garante decisões em tempo real, com maior eficiência e autonomia. Em vez de depender integralmente da nuvem, a inteligência é distribuída na ponta, próxima à operação. Isso tem implicações práticas imensas: máquinas agrícolas que se adaptam em tempo real ao clima e ao solo; linhas de produção que previnem falhas antes que ocorram; varejos físicos que personalizam a experiência do cliente instantaneamente.
Mais do que uma tendência técnica, a IA na borda marca uma nova lógica operacional: sistemas autônomos, responsivos e seguros — capazes de transformar radicalmente a forma como empresas produzem, interagem e crescem. E com o avanço do 5G e a redução dos custos computacionais, esse paradigma já está ao alcance de organizações de todos os tamanhos.
Não falamos apenas de adotar ferramentas. Falamos de reimaginar como pensamos, produzimos, aprendemos e decidimos. Em um mundo onde a inteligência não é exclusivamente humana, o diferencial não será possuir dados — será ter sistemas capazes de aprender com eles, interpretá-los com contexto e agir com propósito.
Como alerta Yuval Noah Harari, “o verdadeiro poder da inteligência artificial não está apenas nos dados que coleta, mas nas decisões que ela começa a tomar em nosso lugar.” O convite está feito: ou lideramos esse processo — com responsabilidade, estratégia e visão — ou seremos moldados por ele.
*Diego Aguiar é Head da Qualcomm para o Brasil
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