Maite Schneider é consultora de diversidade e inclusão, cofundadora de iniciativas como a Integra Diversidade e a plataforma TransEmpregos. Como a primeira profissional trans a ser eleita LinkedIn Top Voice, ela cria pontes e horizontes, combatendo o medo e promovendo a inclusão.
Sua missão é fazer com que as empresas valorizem a diversidade. Maite é uma voz reconhecida e premiada no Brasil, com trabalhos em mais de 2.800 empresas e histórias contadas em diversas mídias.
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Confira abaixo a entrevista que fiz com Maite. Boa leitura.
Liliane Rocha: O que você gostaria que todos soubessem sobre você? Quem é Maite?
Maite Schneider: Uma boa pergunta! Cada vez mais eu tenho me feito ela. “Quem é Maite” e também do que eu gostaria que soubessem. Porque, às vezes, o que as pessoas sabem, aquilo que é mostrado e a forma que as coisas são mostradas, são coisas que já foram, já passaram.
Fui parida como Alexandre, nasci Alexandre e fui colocada neste lugar. Pari a Maite depois, dentro das construções das mulheridades que eu conhecia. Eu tenho 53 anos de idade, então foi muito tempo atrás e que cada vez mais tenho percebido que também não é esse lugar da Maite que foi feita.
Cada vez mais eu estou nessa descoberta. Parece que, quanto mais eu penso em quem é essa Maite, eu percebo que eu sou uma pessoa com muitas dúvidas, com muitas inseguranças, uma pessoa que, mais do que certezas, tem esses lugares de não-convicções.
Eu sou muito mais um estado que muda, que está aberto, do que algo que está duro, arregimentado, que está alocado já de maneira praticamente definitiva. Eu acho que Maite, hoje em dia, é essa pessoa está cada vez buscando, através de tudo o que eu faço na minha vida.
Dos projetos, da realização de sonhos, das viagens que eu faço, das trocas com as minhas amizades, nos estudos que eu tenho feito, eu tenho cada vez mais tenho percebido que eu sou justamente esse processo, que eu sou esse caminho, e não esse ponto de chegar, de definir algo.
LR: Qual é a lição que levou mais tempo para você aprender na vida?
MS: Eu acho que é justamente essa. A que eu estou vivendo! Antes, para mim, a mais difícil tinha sido voltar a acreditar em mim. Que quando eu tive, ainda criança, duas tentativas de suicídio, uma com 13 anos e outra quase completando 15 anos, tentava me entender. Não tinha referências para esse entendimento, não tinha abertura, não tinha livros, não tinha literatura, não tinha informação, não tinha contato. A minha rede era muito fechada naquilo que era os nossos mundos antigamente. E por conta disso, que eu tentei suicídio.
Sou filha do meio, tenho irmão mais velho, uma irmã mais nova. Então sempre tive muito fortes os referenciais. Eu gostava de brincar das coisas do universo feminino e sempre trazendo uma série de desconfortos que, para mim tudo bem, mas para as pessoas que eu amo, que estavam no meu entorno e não sabendo explicar isso e essa agonia de não fazer parte, não pertencer dentro de tudo isso. Depois da minha segunda tentativa de suicídio, meu pai que sempre esteve ali, foi buscar junto comigo, tentar me entender, não me mudar; e me entendendo aos poucos é perceber que eu tinha valor.
E imagina eu, cheia de privilégios, dentro de todos os que eu tive desde criança, de cor, de ser uma pessoa sem deficiência, de vir de uma classe social onde não passei fome, de acessos que eu tive possíveis de boas escolas para estudar, de não ter sido abandonada por minha família, de ter acesso a boas amizades, de pertencer a clubes; foi tão difícil já e por conta dessa palavrinha de ser uma pessoa trans que apareceu na minha vida.
E de entender depois que eu tinha que usar esses privilégios que eu tinha para poder tentar melhorar caminhos pra mim e, melhorando pra mim, melhorar pra outras pessoas, porque eu só acredito em conquistas individuais quando elas passam, elas tomam o caminho da coletividade. Tentar sempre coletivizar tudo para além do, do indivíduo.
Então, é acreditar em mim. Foi muito difícil naquele período e volta a ser hoje em dia, de acreditar que é possível, que tem que continuar, que não dá para se deixar abater por esse lugar, desse caos, dessa situação.
De como voltar a ser semente quando o solo está tórrido. Tentando achar dentro de mim esse lugar de ser luz quando tudo está se escurecendo. Você tentar acender uma centelha ali, um fósforo, algo para continuar iluminando.
LR: Você tem falado sobre ser uma mulher 50 mais. Aos 50 anos de idade, Maite, o que você sabe com certeza?
MS: Nunca foi mais verdadeiro o “só sei que nada sei”. Só sei que está tudo estranho, só sei que eu quero descobrir essas novas potências em mim para potencializar outras coisas. Eu só sei que eu preciso fazer alguma coisa, inclusive em respeito a tudo que foi feito em termos de TransEmpregos, em termos do universo corporativo. Eu preciso fazer alguma coisa com isso tudo que foi construído.
Com tudo que eu estudei, nesse período eu fiz três MBAs, eu quero deixar alguma coisa, nem que seja um alerta, nem que seja um aviso para os próximos tempos que estão vindo, que estamos vivendo e do que vai vir disso tudo. Eu estou preparando um site; já comprei o domínio, “deipratras.com.br” e o “deiprafrente.com.br”, onde eu estou fazendo uma lista dessas empresas que estão dando para trás. DEIP porque eu trabalho a questão do pertencimento na consultoria, na Integra. Eu tenho trabalhado a questão do pertencimento faz um tempo já há bastante tempo, porque não adianta só incluir.
Todo ano a gente vem aumentando tanto o número de vagas quanto de contratações. Já chegamos a ter e a passar de mil contratações por ano. Este ano, a gente está na metade do ano, e a gente empregou 80 pessoas. O que eu sei com certeza é isso, que a gente tem cada vez mais focar em interseccionalidade e, verdadeiramente, focar os nossos esforços. Eu quero focar minha energia para aquela pessoa que precisa, de fato, que está na ponta, que não tem força para sobreviver.
LR: Você fundou a transempregos, cofundou a Integra. Lidera projetos como o TRANSformação e o LideraTRANS. Como tem sido sua experiência como empreendedora?
MS: Eu sou cofundadora da TransEmpregos junto com a Dra Marcia Rocha e Laerte Coutinho. Quem fundou a TransEmpregos foi a doutora Marcia Rocha. Ela é a grande guerreira, mentora. Eu criei o Empodera Trans, que é a primeira rede de empreendedorismo trans.
Quanto eu fiz faculdade de Direito e fui procurar estágio na época, eu era apaixonada por direito penal; eu fui aos 20 melhores escritórios de Direito, e nenhum me deu oportunidade. Daí, entrei em um período de depressão (mais um na minha vida) achando que o problema era comigo.
Isso foi no final do século passado, literalmente. E daí, logicamente, peguei trauma disso e fui fazer Letras Português–Alemão, bacharelado em interpretação e direito teatral. E daí, lógico, essas coisas não davam dinheiro.
Comecei a conhecer muita gente e a ter amizades com gays, principalmente por frequentar a ambientes, na época GLS. Eu criei em Curitiba a primeira clínica de depilação masculina. Depois eu vim para São Paulo ainda trabalhando com depilação masculina para me manter na cidade. Foi um sucesso essa técnica de depilação masculina na Casa da Maite. Então o empreendedorismo sempre me salvou de lugares de dor.
Hoje sou uma das embaixadoras da Rede Mulher Empreendedora, da Ana Fontes, que é uma rede de empreendedorismo feminino. Já fiz vários cursos nessa área para pessoas trans, com participação do SEBRAE. Criei o Empodera Trans em 2023 para trazer o empreendedorismo. Acho que para grupos subrepresentados e em situação de vulnerabilidade, este é o único caminho.
LR: Ao longo dos anos tivemos avanços na inserção de profissionais TRANS nas grandes empresas? Como você vê estes avanços?
MS: A gente veio de um lugar de zero absoluto. Antes da TransEmpregos, a gente não ouvia falar de empregabilidade de profissionais trans, a gente não conseguia nem juntar essas palavras, profissionais e trans, porque parecia utópico. Porque não existia, lógico que tinha pessoas trans, já empregadas, mas a maioria, com transição muito tardia, a maioria ainda nem transicionando, mas tinha, lógico, mas o grande boom foi com a TransEmpregos mesmo. E isso foi lá em 2013, então teve muito avanço.
O uso de nome social, que, por exemplo, várias empresas começaram a fazer antes mesmo de ser lei. Então, várias empresas começaram a fazer, a gente foi acompanhando esses processos junto na construção das empresas, a gente fez contratação, só nesses anos todos foram mais de 10 mil profissionais trans empregados e fazendo planos de carreira. Hoje, a gente tem pessoas com oito, nove anos dentro das empresas.
LR: O que se fosse feito pelas empresas, governo e sociedade civil mudaria de vez o cenário da transfobia no Brasil?
MS: Em termos de governo, acho que a primeira coisa que está faltando imediatamente é a produção e divulgação de dados oficiais, para a gente justamente entender mais, ter estatísticas reais da violência, discriminação de quem nós somos. E acho que isso é extremamente importante, até pra que a gente tenha novas perspectivas, políticas mais assertivas.
É também investir em educação mais inclusiva, nas escolas, trazendo de maneira, nem que seja nos currículos dentro do PNE (Plano Nacional de Estudo), e também trazendo as questões de identidade, de orientação, do preparo de professores sobre o bullying. Ou seja, a formação desses educadores com mais respeito e entendimento da amplitude da diversidade.
Com relação às empresas podem ser letramentos, repensando cultura organizacional, ampliando realmente questões, analisando de maneira efetiva as questões de benefícios, de planos de carreira, da política de feedback, dentro das empresas, voltada realmente para essa melhor lapidação em termos de treinamento e educação.
E, com relação à sociedade civil, eu acho que a gente tem muitos caminhos a serem trilhados, mas eu acho que o mais importante seria a gente primeiro treinar a empatia, algo que a gente fala tanto, quando a gente fala de diversidade, equidade, inclusão e de pertencimento , que não é um se colocar no lugar do outro, mas perceber no outro como é que a gente interage, como criar pontos de potência, para a gente unir e multiplicar, para a gente somar e não diminuir no encontro do outro, da outra, de outre.
LR: Como você analisa o cenário hoje e o que espera para os próximos anos?
MS: Eu estou verdadeiramente muito triste com tudo o que eu tenho visto, especificamente do segundo período do segundo semestre, do ano passado em diante. E por mais que eu tenha tentado ver coisas positivas porque, logicamente, quem fazia diversitywashing – seu termo, que tanto divulgo, que tanto me orgulha de você ter trazido, esse pensar que hoje são práticas que a gente vê.
Espero cada vez mais que empresas deixem de ficar em cima de muro nesses momentos, para realmente se alinharem e dizerem: “não aqui, não! Aqui realmente diversidade é importante, sustentabilidade é um caminhar que a gente não abre mão e está dentro, realmente, do nosso DNA e da nossa construção aqui. Aqui realmente diversidade, sustentabilidade estão dentro do que a gente acredita como missão, como valores e como propósitos dentro da nossa empresa”.
LR: Como você define o sucesso?
MS: O sucesso para mim é a gente conseguir parir o ser humano que a gente nasceu para ser. É a gente construir pontes, diminuir os abismos de desigualdades que nos rodeiam. O sucesso é quando eu multiplico a vontade de aprender e divido também tudo aquilo que eu sei.
Para mim, de verdade, é quando a gente faz dessas conquistas coletivas do nosso dia a dia, a nossa maior vitória enquanto pessoa mesmo, enquanto indivíduo. Isso é sucesso!
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