Uma nova geração de startups de inteligência artificial está mudando a forma como se constrói uma empresa bilionária. Por meio do desenvolvendo ferramentas para automatizar fluxos de trabalho em todos os setores, incluindo atendimento ao cliente, vendas e engenharia de software, elas estão escalando rapidamente e com equipes reduzidas, às vezes com menos de dez pessoas.
Reportagem do Quartz destaca que essas ferramentas são construídas com base em modelos de IA como o ChatGPT da OpenAI ou o Gemini do Google, o que evita o custo altíssimo de infraestrutura, com data centers próprio, e ainda permite a operação com IA em vez de humanos.
Um dos expoentes desse novo momento do ecossistema de startups é a Lovable. A plataforma sueca de vibe coding alimentada por IA, que permite que usuários não familiarizados com tecnologia criem software por meio de prompts de linguagem natural, que tem apenas 45 funcionários, se tornou unicórnio (negócios avaliados em US$ 1 bilhão ou mais) no início de julho, apenas oito meses após o seu lançamento.
Outra plataforma de vibe coding, a Bolt, atingiu US$ 20 milhões em receita recorrente anual (ARR) em apenas dois meses. Já o copiloto de codificação Cursor informou, em junho, que atingiu US$ 500 milhões em ARR, um aumento de cinco vezes desde janeiro, e isso com menos de 50 trabalhadores.
Há ainda muitos outros exemplos. A A Gumloop, startup de automação de fluxo de trabalho habilitada por IA, levantou uma Série A de US$ 17 milhões com apenas dois funcionários em tempo integral, e pretende chegar ao status de unicórnio tendo 10 pessoas na equipe.
A Safe Superintelligence, que pretende desenvolver um agente de IA capaz de superar a inteligência humana, foi lançada há um ano por Ilya Sutskever, ex-cientista-chefe da OpenAI, e já está avaliada em US$ 32 bilhões, tendo somente 20 funcionários.
Segundo a CB Insights, esses números já superam 2024, quando os unicórnios de IA tinham, em média, cerca de 200 funcionários e atingiram uma avaliação de bilhões de dólares em dois anos. Para efeito de comparação, startups sem IA normalmente levam nove anos e exigem quase o dobro do tamanho da equipe para se tornarem unicórnios.
Investidores estão de olho
O Quartz salienta que startups com tecnologia de IA também estão crescendo mais rápido do que as empresas tradicionais de software como serviço, atingindo marcos de ARR em menos tempo.
Um relatório recente da fintech Stripe revelou que as 100 principais empresas de IA em sua plataforma atingiram US$ 1 milhão de ARR em um período médio de 11,5 meses, cerca de quatro meses menos que as empresas de SaaS de crescimento mais rápido no auge do boom de assinaturas.
Ainda segundo a análise, das 100 principais empresas de IA, aquelas fundadas antes de 2020 levaram, em média, 41 meses para atingir US$ 5 milhões de ARR, em comparação com apenas 13 meses para aquelas lançadas depois disso.
Mas a velocidade com que esses negócios estão atingindo marcos de ARR levanta questões para os investidores. Em uma postagem recente em seu blog, o fundo de investimento pré-VC Right Side Capital observou que, antes, se uma startup estivesse contratando funcionários e expandindo escritórios, presumia-se que estava progredindo, mas, quando os custos de escala caem drasticamente, esses indicadores se tornam pouco confiáveis.
“Os investidores precisam agora repensar as estruturas tradicionais de avaliação”, comentou a empresa. “Se uma startup consegue atingir US$ 10 milhões de ARR com uma fração do investimento em 2018, isso ainda justifica o mesmo múltiplo de avaliação? Como isso altera o tamanho das rodadas de financiamento em estágio inicial?”, questionou.
Jamin Ball, da Altimeter Capital, empresa de capital de risco, citado pelo Quart, disse à The Economist recentemente que as empresas tendem a experimentar muitas ferramentas de IA.
Ele chama isso de abordagem “fácil de vir, fácil de ir”, o que significa que as empresas não estão comprometidas com nenhum produto específico. O executivo sugere que isso cria uma “taxa de execução experimental”, em vez de ARR.
Mais um risco potencial das startups com equipes enxutas é a questão da responsabilização. “Se [executivos humanos] fizerem um trabalho ruim, você pode demiti-los, então eles sempre serão responsabilizados por suas decisões”, comentou Ash Barbour, fundador da Yes.inc, serviço que conecta startups a especialistas do setor que podem promover seus produtos.
Ele acrescentou que uma IA, porém, pode fazer “o que quiser” sem sofrer repercussões. “Acho extremamente difícil acreditar que qualquer empresa, especialmente empresas de capital aberto, deixe a decisão final para a IA”, finalizou.






