Imagine a cena: você acorda, abre a janela e vê o ônibus elétrico passando pontualmente na sua rua. Ele é silencioso e não polui o ar. No aplicativo do celular, você acompanha em tempo real o trajeto, sabendo exatamente quando sair. No caminho, a cidade parece funcionar com mais harmonia — os semáforos se ajustam ao trânsito, a iluminação pública acende apenas quando necessário. Seu prédio produz parte da energia que consome, e o lixo que você separa é transformado em novos produtos. Isso não é ficção científica, é um futuro possível para o Brasil na próxima década, mas precisamos colocar a tecnologia para trabalhar a nosso favor.
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Projetar o Brasil de 2035 é um exercício de reflexão necessário. Ao imaginar como queremos viver daqui a dez anos, conseguimos enxergar as decisões que precisam ser tomadas hoje. Essa visão de futuro nos ajuda a identificar quatro caminhos essenciais: descarbonizar a economia, ampliar a circularidade, investir na capacitação das pessoas e aplicar a tecnologia com propósito. Não se trata de prever o amanhã, mas de construir, de forma coordenada e consciente, um país mais sustentável, inclusivo e preparado para os desafios que virão.
A energia que move o futuro
Em 2035, a energia que alimenta nossas casas, empresas e transportes poderá ser majoritariamente renovável — solar, eólica, biomassa — e inteligente. Redes elétricas conectadas (as chamadas smart grids) saberão exatamente onde e como direcionar a energia, evitando desperdícios.
Sistemas de armazenamento, como baterias distribuídas, permitirão equilibrar a produção e o consumo. E consumidores também serão produtores (“prosumers”): telhados solares em escolas, prédios públicos e residências vão gerar energia que poderá ser trocada ou vendida. Isso já está começando a acontecer — e, com apoio técnico e políticas públicas, será realidade em todo o país.
Do descarte ao recomeço
Já pensou em um mundo onde nada se perde? Em que um tênis velho vira material para a construção civil ou em que a água utilizada na indústria é tratada e reutilizada?
A circularidade é isso: dar novas vidas aos materiais, redesenhar processos para evitar o desperdício e integrar a sustentabilidade desde o início. Com o uso de gêmeos digitais, as empresas já conseguem simular o impacto ambiental de seus produtos antes de produzi-los. Isso significa menos resíduos, menos custos — e mais valor para a sociedade e para o meio ambiente.
Hoje, o Brasil dá os primeiros passos nesse caminho. Em 2035, isso poderá ser parte do cotidiano das nossas indústrias, escolas e até das nossas casas.
Educação que transforma e inclui
Mas nada disso funciona se não investirmos nas pessoas. A transformação digital só será real se for inclusiva. Precisamos garantir que todos tenham acesso à internet, educação de qualidade e formação profissional alinhada com as demandas de um mundo mais tecnológico e sustentável.
A tecnologia cria oportunidades de trabalho. Ao contrário do que muitos pensam, a automação não substitui pessoas, ela transforma o tipo de trabalho que fazemos. Com capacitação, trabalhadores de todas as idades podem atuar em áreas como programação de robôs, análise de dados e manutenção preditiva. A indústria do futuro é mais tecnológica, sim — mas também mais humana.
Em 2035, os jovens podem estar programando sistemas de energia inteligente no sertão, gerenciando plataformas de logística verde na Amazônia ou desenvolvendo aplicativos de mobilidade nas periferias das grandes cidades. Mas, para isso, precisamos agir hoje: conectando escolas, valorizando professores, investindo em ciência e tecnologia.
Tecnologia com propósito
A tecnologia que transforma não é a mais complexa — é a que faz sentido. Já temos cidades brasileiras instalando iluminação pública inteligente, como Porto Alegre e Curitiba. Postes que avisam quando queimam, que economizam energia, que se conectam a sensores de segurança ou câmeras de monitoramento.
Na indústria, sensores detectam falhas antes que elas aconteçam. Nos hospitais, algoritmos contribuem para diagnósticos mais assertivos e rápidos. Nos campos, drones e dados ajudam agricultores a produzir mais, com menos impacto ambiental. Tudo isso já existe. O desafio é levar essa inovação para todos, com ética, responsabilidade e foco no bem comum.
O Brasil de 2035 é possível. E ele começa agora
O Brasil de 2035 pode ser mais verde, mais conectado, mais justo e mais competitivo. A tecnologia é a ferramenta de construção de valor, e com ela vem empregos. As escolhas, no entanto, são humanas e devemos agir com ousadia, responsabilidade e colaboração.
Não precisamos apenas imaginar a cena: juntos, podemos transformar nossa visão em realidade e construir um futuro em que cada ação conta e cada pessoa faz a diferença para fazer do Brasil um exemplo mundial de inovação e de transformação tecnológica com sustentabilidade.
*Pablo Fava é CEO da Siemens Brasil, Líder com Impacto e porta-voz de Indústria, Inovação e Infraestrutura (ODS 9) do Pacto Global da ONU
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