As teorias premiadas com o Nobel de Economia de 2025 ajudam a explicar por que a inteligência artificial ainda vive uma fase de destruição sem criação, o estágio que precede a verdadeira destruição criativa.
A IA promete um salto histórico de produtividade e eficiência. Mas, por enquanto, o que vivemos é um período de desequilíbrio: o avanço técnico corre em ritmo vertiginoso, enquanto as bases sociais, institucionais e organizacionais ainda tentam compreendê-lo, quanto mais acompanhá-lo.
O resultado é este limbo em que estamos, e permaneceremos por algum tempo, uma fase de destruição sem criação descrita por Schumpeter e formalizada por Philippe Aghion e Peter Howitt, laureados com o Nobel ao lado de Joel Mokyr.
A IA está, de fato, transformando o trabalho e os modelos produtivos. Nos últimos meses, grandes empresas anunciaram demissões em massa, mas esses cortes não refletem, na maioria dos casos, a reinvenção dos negócios, apenas a substituição direta de pessoas por algoritmos. É um movimento de eficiência tática, não de transformação estratégica.
Os economistas chamariam esse momento de fase de transição destrutiva, quando a tecnologia avança mais rápido do que as instituições conseguem absorver. Sem educação adequada, regulação moderna e cultura organizacional madura, o progresso técnico se desequilibra.
Relatórios recentes da OCDE e do FMI mostram que o impacto da IA na produtividade global ainda é limitado, e não poderia ser diferente. Estamos na mesma curva de aprendizado que marcou as revoluções industrial e digital. A destruição vem primeiro, a criação vem depois. Há um motivo para a expressão ser destruição criativa, e não construção destrutiva.
Como explica Joel Mokyr, o progresso só se torna sustentável quando há instituições que incentivam aprendizado, experimentação e difusão do conhecimento. Sem essa base, o avanço técnico se dispersa e o crescimento não se sustenta.
Enquanto a IA evolui mês a mês, os sistemas educacionais, as regulações e os modelos de gestão ainda seguem o ritmo das décadas. Esse descompasso explica por que não faz sentido esperar que a IA já tenha se traduzido, de forma decisiva, em novos setores, empregos ou formas de valor.
A destruição criativa ainda não começou porque a parte criativa do ciclo ainda está sendo construída, mas está próxima. Quando vier, não será sobre substituir pessoas, e sim reimaginar o que as pessoas podem fazer. Será o ponto em que veremos novos setores nascerem da fusão entre capacidade humana e inteligência artificial.
Estamos vivendo a fase da destruição sem criação, o limbo entre o fim do antigo e o início do novo. O ciclo da destruição criativa ainda não começou, mas a história mostra que ele sempre começa assim.
*André Nunes é Managing Partner da Beta-i Brasil






