Um relatório investigativo revelou que a Meta, controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp, teria faturado bilhões de dólares com anúncios de fraudes e golpes, parte dos quais foram usados para financiar seus investimentos em inteligência artificial. A denúncia foi publicada pela Ars Technica, com base em documentos internos analisados pela agência Reuters.
Segundo o levantamento, ao longo de cinco anos, a empresa manteve contas reincidentes que veiculavam conteúdos fraudulentos para maximizar receitas publicitárias. Mesmo os anunciantes classificados como “scammers [golpistas] de alto risco” conseguiram veicular até 500 anúncios antes de serem eventualmente removidos.
Documentos internos apontam que, em 2024, a Meta projetava arrecadar cerca de US$ 16 bilhões (R$ 85 bilhões), aproximadamente 10% de sua receita anual , somente com esse tipo de publicidade. Os chamados “anúncios de alto risco” incluíam desde promoções de produtos proibidos até esquemas de investimento e falsos anúncios com celebridades.
Sistemas miravam usuários vulneráveis
Os sistemas de personalização da Meta desempenharam um papel central na disseminação desses anúncios. O algoritmo da empresa foi projetado para mostrar conteúdos com base nos interesses e comportamentos dos usuários, o que, segundo o relatório, fazia com que aqueles que clicavam em golpes vissem ainda mais anúncios semelhantes.
Entre os exemplos citados estão fraudes que usavam imagens do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do empresário Elon Musk. Em um caso, um anúncio falso dizia que Trump estava oferecendo US$ 710 a todos os americanos como “alívio tarifário”. Outro usava a imagem de Musk com a mensagem: “Ei, sou eu. Tenho um presente para você. Me mande uma mensagem.”
A postura da Meta diante desses casos revela uma priorização do crescimento sobre a moderação de conteúdo. Documentos mostram que, em 2023, a empresa reduziu equipes responsáveis por proteger as marcas anunciantes e redirecionou recursos para projetos de realidade virtual e inteligência artificial, estimados em US$ 72 bilhões (R$ 385 bilhões).
Em 2025, a Meta teria instruído equipes a não barrar anúncios que representassem mais de 0,15% da receita anual — cerca de US$ 135 milhões por conta suspeita, segundo cálculos citados pela Reuters. A política visava evitar perdas financeiras significativas mesmo diante de campanhas fraudulentas.
Andy Stone, porta-voz da Meta, afirmou que os documentos analisados apresentam uma “visão seletiva” das práticas da empresa. Ele alegou que os dados sobre lucros com golpes são estimativas imprecisas e afirmou que a empresa “combate agressivamente fraudes e golpes”. Apesar disso, Stone reconheceu que, no início de 2025, a própria equipe de segurança da Meta estimava que suas plataformas estivessem envolvidas em um terço dos golpes bem-sucedidos nos EUA.
Ex-funcionários da Meta também se pronunciaram. Rob Leathern, que liderou a unidade de integridade de negócios da empresa até 2020, defendeu a criação de mecanismos independentes para avaliar a eficácia das redes sociais no combate a fraudes. Em entrevista à Wired, ele e outro ex-executivo, Rob Goldman, anunciaram a criação da organização sem fins lucrativos CollectiveMetrics.org, que visa ampliar a transparência na publicidade digital.
Leathern sugeriu que empresas como a Meta deveriam não apenas alertar usuários que clicaram em anúncios fraudulentos, mas também destinar os lucros obtidos com esses conteúdos para iniciativas educativas. “Há muito o que se pode fazer com os recursos vindos desses golpistas”, afirmou.






