Durante décadas, acreditamos que a inovação era um processo restrito a departamentos de pesquisa e desenvolvimento blindados por patentes e segredos industriais. Esse modelo de inovação fechada ajudou a criar gigantes e consolidar setores inteiros, mas está cada vez menos compatível com o mundo atual.
A velocidade da transformação tecnológica, o custo crescente de desenvolver soluções inéditas e a complexidade dos problemas contemporâneos tornam impossível para qualquer empresa inovar sozinha. O futuro da inovação está em redes, não em laboratórios que trabalham sozinhos. E, como liderança de tecnologia em uma empresa de saúde, diariamente trabalho para quebrar esse paradigma do nosso setor.
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A inovação aberta é o modelo de gestão que melhor traduz essa virada, um conceito que completou 20 anos, mas que só agora está massificado nas empresas. A ideia central é simples, mas poderosa: conhecimento e criatividade não respeitam fronteiras organizacionais.
Startups, universidades, governos, fornecedores, clientes e até concorrentes podem se tornar parceiros estratégicos no desenvolvimento de novos produtos, serviços e modelos de negócio. Em vez de tratar a colaboração como exceção, a inovação aberta a coloca no centro da estratégia.
Esse modelo não está apenas no hype: vários diversos estudos demonstram que empresas que ampliam suas fontes externas de conhecimento têm desempenho financeiro e de inovação superior.
Por essa lógica, ideias valiosas podem surgir em qualquer lugar e, quando combinadas de forma inteligente, aceleram descobertas, reduzem custos e aumentam as chances de sucesso no mercado. Estou à frente e fomento diversas frentes de trabalho com startups parceiras que comprovam a tese. Em alguns casos, a otimização de recursos chegou a 50%.
Mas há um paradoxo. Quanto mais uma empresa se abre, mais precisa saber o que manter fechado. É uma equação delicada entre proteger ativos e compartilhar para crescer, que exige estratégia, governança e cultura.
Fôlego para startups
Para startups, esse modelo é quase uma questão de sobrevivência. Com poucos recursos internos e prazos curtos para provar seu valor, elas encontram na colaboração um caminho para dividir custos, validar rapidamente ideias e acessar conhecimentos especializados que demorariam ou não poderiam desenvolver sozinhas.
Parceiros estratégicos, como clientes e fornecedores locais, tornam-se fundamentais para reduzir riscos e encurtar o ciclo de inovação. Em alguns casos, até mesmo a cooperação com concorrentes internacionais, chamada de coopetição, pode gerar produtos novos para mercados domésticos.
As grandes corporações também estão aprendendo que abrir suas fronteiras pode ser mais lucrativo do que insistir na autossuficiência. Licenciar uma tecnologia para outro setor, cocriar soluções com startups ou compartilhar informações que acelerem a criação de padrões globais podem render retornos financeiros e reputacionais superiores aos obtidos com a tentativa de controlar todo o processo.
No setor de saúde, essa é a linha de pensamento que resulta não apenas em eficiência operacional, mas em diagnósticos mais precisos que salvam vidas.
No Brasil, a inovação aberta na saúde já tem resultados concretos em diferentes frentes: desde parcerias com startups que implementam IA generativa para elaboração mais acurada de laudos de exames, até iniciativas que revolucionaram a gestão de escalas, permitindo que médicos escolham suas agendas de forma dinâmica, aumentando a eficiência operacional e gerando receita incremental ao reduzir períodos ociosos.
Os avanços, porém, não significam que a inovação aberta seja isenta de desafios. Muitas vezes, as maiores barreiras estão dentro das próprias organizações. Fluxos de trabalho engessados, culturas avessas ao risco e a “miopia da proteção” (a tendência de supervalorizar a defesa da propriedade intelectual em detrimento da colaboração) são obstáculos comuns. Além disso, compartilhar seu ecossistema envolve custos de coordenação e riscos de competição. Mas ignorar esse movimento é ainda mais arriscado.
Governos ao redor do mundo já perceberam essa transformação e criam políticas públicas para estimular a cooperação entre empresas, universidades e startups. Comunidades acadêmicas e empresariais crescem em torno do tema, e a inovação aberta caminha para se tornar regra, não exceção. O que está em jogo é a capacidade de cada organização de identificar os parceiros certos, calibrar o nível de abertura e transformar essa rede em vantagem competitiva sustentável.
Em última instância, inovação aberta não significa só “abrir portas”, mas construir ecossistemas robustos. O valor está na rede, não no controle. Empresas que souberem cultivar parcerias estratégicas, equilibrar proteção e compartilhamento e entender que inovação é um processo coletivo estarão mais bem posicionadas para liderar no mercado global. O futuro da inovação é colaborativo. E o verdadeiro desafio não é ter ideias, mas saber com quem e como compartilhá-las.
*Anaterra Oliveira é CIO da Dasa






