No começo, o câncer é uma doença silenciosa. Dentro do corpo, células se multiplicam agressivamente, mudando tudo. Mas, por fora, nem sempre há sinais claros. Helmy Eltoukhy, co-CEO da Guardant Health, começou a pensar: e se fosse possível detectar o câncer bem no início — por meio de um exame de sangue — antes mesmo de a pessoa saber que está doente?
“Muitos pacientes passam por uma jornada de diagnóstico extremamente angustiante”, disse Eltoukhy ao Business Insider.
Eltoukhy se formou em engenharia elétrica na Stanford University no fim dos anos 1990, durante o boom da bolha das empresas “pontocom”. Depois, trabalhou na Illumina, ajudando a tornar o sequenciamento genético mais barato — reduzindo o custo de um processo que antes custava bilhões de dólares para cerca de US$ 1.000.
Essa experiência ensinou que a Lei de Moore — segundo a qual a tecnologia se torna exponencialmente mais rápida e barata — poderia transformar também a biologia.
Assim, nos últimos 13 anos, Eltoukhy tem perseguido o que chama de “santo graal da detecção precoce de doenças”: um exame de sangue que qualquer médico pudesse aplicar durante um check-up anual para rastrear diversos tipos de câncer.
Em 2012, ele se juntou ao também ex-aluno de Stanford AmirAli Talasaz para criar as chamadas “biópsias líquidas” — exames que usam fragmentos de DNA de câncer no sangue de uma pessoa para ajudar médicos a definir o melhor tratamento.
O primeiro teste de câncer da empresa, o “Guardant360”, foi um sucesso. Recebeu aprovação do FDA em 2020, ajudando médicos a personalizar tratamentos para câncer em estágio avançado e a aumentar as taxas de sobrevivência.
Mas o objetivo final sempre foi detectar o câncer cedo. Em 2015, eles “bateram em uma parede”, contou Eltoukhy, ao descobriram que “não havia mais nada para detectar” geneticamente.
Então, a empresa entrou em “modo missão lunar” — um projeto chamado LUNAR — e passou a olhar para a Epigenética, o “software molecular” que controla quais genes ficam ativados ou desativados dentro do nosso “hardware” (o DNA).
Esse foi o grande avanço. “Criamos uma química que nos permite enxergar tanto a camada de hardware (genômica) quanto a de software (epigenética)”, explicou Eltoukhy.
Essa descoberta levou ao Guardant SHIELD, o primeiro exame de sangue aprovado pelo FDA para detectar câncer de cólon, liberado em 2024. O teste é quase perfeito para identificar casos em estágio avançado — quando há muito DNA de câncer circulando no sangue —, mas tem sensibilidade de cerca de 60% para câncer em estágio 1.
Agora, está sendo testado em um grande estudo clínico independente com 24.000 pacientes nos EUA, ao lado de um teste da concorrente ClearNote Health. O objetivo do estudo liderado pelo National Institutes of Health (NIH) é medir a capacidade do SHIELD de identificar não só câncer de cólon, mas também outros tipos — como de bexiga, mama, pâncreas e mais.
“Pense no seu iPhone: no começo tinha poucos recursos, com o tempo passou a ter milhares”, disse Eltoukhy ao Business Insider. “Você imagina um futuro em que tudo isso será combinado em um único exame de sangue. Em vez de bilhões, analisaremos trilhões ou quadrilhões de pontos de dados por teste. É só uma questão de tempo. Não tenho dúvidas de que isso acontecerá.”






