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O preconceito contra o tempo: o etarismo silencioso nas empresas brasileiras

Redação by Redação
outubro 10, 2025
in Negócios, News
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É possível prolongar a carreira para além dos 50; saiba como
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O Brasil vive uma inversão da pirâmide etária: a expectativa de vida da população brasileira é de 70 anos, e o chamado “tsunami prateado” já é uma realidade. Em poucos anos, teremos mais pessoas acima de 60 anos do que jovens no mercado de trabalho; com renda e vitalidade, ávidas por viver a vida.

Neste cenário, é um enorme paradoxo social que os profissionais 60+ sigam invisíveis para as grandes empresas. Justamente quando o país mais precisa dessa força de trabalho experiente, são eles os primeiros a serem descartados em processos de seleção e reestruturações organizacionais.

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Segundo o Censo do IBGE, pessoas com 60 anos ou mais representam 15% da população, ou seja, 32 milhões de brasileiros. Na contramão, segundo o estudo Diversidade, Representatividade e Percepção – Censo Multissetorial da Gestão Kairós, pessoas com 50 anos ou mais nas grandes empresas correspondem a apenas 5,2% do quadro funcional.

Essa ausência representa não apenas um paradoxo, mas também uma perda estratégica para os negócios. Ao analisarmos o cenário da sociedade, a única explicação razoável é o etarismo, termo cunhado em 1969 pelo psiquiatra e gerontologista norte-americano Robert Neil Butler, que significa estereótipos, preconceitos e discriminação em razão da idade.

Por isso, resolvi conversar com algumas executivas 60+ para ouvi-las sobre os desafios enfrentados por profissionais dessa faixa etária no mercado de trabalho.

“Por mais bem estruturada que seja a política de valorização e promoção da diversidade geracional nas empresas, que pode perpassar todos os subsistemas de gestão de pessoas, o que me parece sustentar suas chances de êxito é a educação para o enfrentamento do etarismo. Uma educação que tenha intencionalidade conceitual clara (a motivação da empresa) e pedagógica (metodologia adequada), para tornar conscientes estereótipos e preconceitos, assim como evidenciar comportamentos que se manifestam no cotidiano dos relacionamentos interpessoais no trabalho.

Embora colaboradores de qualquer faixa etária possam ser vítimas do etarismo no ambiente profissional, sem dúvida as mais vulneráveis têm sido as idosas, em razão das mudanças demográficas do nosso tempo. O ambiente social já parece ter assimilado que não é ‘politicamente correto’ ou que é até passível de punição, inclusive legal, qualquer manifestação pejorativa dirigida à pessoa idosa.

Mas isso não significa ausência de comunicação do conteúdo que a desqualifica, muitas vezes na forma de um bullying insidioso, que provoca sofrimento intenso às vítimas e corrói a credibilidade e o engajamento à política de diversidade geracional da empresa.

Como as experiências mais significativas da vida se dão em meio aos relacionamentos interpessoais, são eles que poderão favorecer a construção de uma cultura organizacional de respeito e empatia frente à diversidade etária, baseada nos valores corporativos que a inspiraram”, diz Mara Christofani, Consultora nas áreas de Educação, Sustentabilidade e Investimento Social Empresarial.

Para Roberta Giovana Martielo, Psicóloga da Petrobras, “a diversidade etária enriquece o ambiente de trabalho ao combinar a experiência e o conhecimento prático dos profissionais maduros com a energia e a urgência por resultados das novas gerações. No entanto, esse encontro pode gerar atritos: a impaciência dos jovens com processos consolidados e a resistência dos mais experientes à agitação da juventude. O grande desafio, portanto, é transformar essa tensão em um potencial de cocriação, por meio da escuta ativa e do respeito mútuo aos diferentes valores que cada fase traz para a organização”.

Segundo Fernanda Gabriela Borger, Pesquisadora FIPE, Consultora e Professora, “o preconceito etário ainda é a maior barreira para a inserção dos 60+, presente no mercado, na academia e no terceiro setor. Muitas vezes, profissionais a partir dos 45 anos já são direcionados para a consultoria ou para a docência, que são áreas valiosas, mas que acabam sendo vistas como ‘refúgio dos mais velhos’, reforçando estigmas em vez de reconhecer talentos”.

Envelhecer não significa perder valor: significa acumular competências essenciais, como visão sistêmica, escuta ativa, articulação e experiência. Organizações que valorizam essa potência transformam a diversidade etária em vantagem competitiva para o futuro.

O apagamento dos profissionais 60+ no mercado de trabalho é um sintoma de um país que ainda confunde juventude com produtividade e experiência com obsolescência.

O etarismo institucionalizado nas organizações brasileiras não é apenas uma injustiça social, mas também um erro estratégico que impede as empresas de aproveitarem o capital humano mais preparado para lidar com complexidade, resiliência e mudanças.

Enquanto o Brasil envelhece, insistir em modelos que excluem os mais experientes é caminhar na contramão do próprio futuro.

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