Gripes, resfriados e problemas do sistema respiratório podem causar a perda temporária do olfato, um sentido fundamental para os humanos. Mas essa condição também pode ser um sintoma precoce de doenças neurodegenerativas, como o Parkinson e Alzheimer.
“Isso já é conhecido há algum tempo, mas o surpreendente é que a perda do olfato ocorre anos antes dos sintomas dessas doenças aparecerem”, escreveu Jannette Rodríguez Pallares, professora titular de Anatomia e Embriologia Humana na Universidade de Santiago de Compostela, da Espanha, em artigo publicado no The Conversation.
Mas será, então, que não ter mais a capacidade de sentir cheiros poderia ser usada para prever o Parkinson e o Alzhimer? Segundo a autora, identificar sintomas precoces como esse pode servir como um biomarcador.
“Isso nos permitiria diagnosticar muito mais cedo e fornecer acesso a tratamentos mais eficazes”, comentou. “O problema é que esse sintoma não é exclusivo do Parkinson: ele também pode aparecer com o envelhecimento, estresse ou outras condições. Isso significa que tendemos a minimizar sua importância.”
Pallares acrescentou que ainda não se sabe ao certo por que doenças neurodegenerativas causam perda do olfato, embora haja pistas. “Em alguns pacientes com Parkinson, a doença pode começar no bulbo olfatório muito antes de se espalhar para as áreas que controlam os movimentos. Isso ocorre porque certos vírus, pesticidas ou toxinas que inalamos podem danificá-lo e causar alterações na área”, explicou.
No caso do Alzheimer, ela salientou que os danos podem começar em uma pequena região azulada do tronco cerebral chamada locus coeruleus; “Esse ‘botão de alerta’ nos mantém acordados e focados, e sua conexão com o bulbo olfativo é o que liga os cheiros às emoções. Quando essa conexão é rompida, surgem problemas com o olfato muito antes do surgimento dos primeiros sinais de demência”, complementou.
Ainda de acordo com a professora, quando um paciente chega à clínica, nem sempre é fácil distinguir entre a doença de Parkinson e outros distúrbios do movimento semelhantes. Mas a perda do olfato, combinada com exames e outros indicadores, pode ajudar na confirmação.
“Também pode nos ajudar a prever a progressão da doença, pois está relacionada a formas mais graves da doença. Além disso, a perda do olfato na doença de Parkinson é seletiva. Os pacientes percebem cheiros agradáveis, como chocolate, sem problemas, mas têm dificuldade em detectar odores neutros ou desagradáveis, como sabão, fumaça ou borracha”, relatou.
Outros pacientes, especialmente mulheres, têm alucinações olfativas. Isso significa que percebem odores “fantasmas”, como tabaco ou madeira queimada, que não existem de fato.
“Por incrível que pareça, a doença de Parkinson tem até seu próprio cheiro, que foi descrito como amadeirado e almiscarado. Sabemos disso graças a Joy Milne, uma mulher escocesa com olfato aguçado – ela foi capaz de reconhecer esse odor específico em seu marido 12 anos antes de ele ser diagnosticado com a doença”, contou.
E ela completou: “A perda do olfato pode parecer algo restrito ao nariz, mas, na verdade, é uma janela para o cérebro. Ela permite que pesquisadores o explorem para decifrar seus segredos e coletar informações valiosas que nos ajudarão a cuidar e melhorar a qualidade de vida daqueles que sofrem de doenças neurodegenerativas”.






