Adotar a chamada “dieta saudável planetária” poderia evitar cerca de 40 mil mortes prematuras por dia no mundo, segundo um relatório divulgado recentemente e destacado pelo The Guardian. O estudo foi elaborado por 70 especialistas de 35 países e publicado na revista científica The Lancet.
A proposta parte de um conceito simples: alinhar saúde humana e preservação ambiental por meio de escolhas alimentares mais equilibradas. A dieta não elimina o consumo de carne, mas sugere reduções significativas em regiões onde o consumo de produtos de origem animal é elevado. Ao mesmo tempo, incentiva o aumento de alimentos como vegetais, legumes, grãos integrais e frutas, que hoje estão ausentes em quantidades adequadas na maioria das dietas globais.
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Redução de emissões e impacto ambiental
Além dos benefícios à saúde, o modelo alimentar poderia cortar pela metade as emissões de gases de efeito estufa relacionadas à produção de alimentos até 2050. Atualmente, estima-se que um terço das emissões globais esteja ligado à cadeia alimentar. O sistema de produção atual também é um dos principais responsáveis pela destruição de florestas, perda de biodiversidade e poluição da água.
A necessidade de mudança é urgente, segundo os autores do estudo, e a transição para um sistema alimentar sustentável é considerada essencial para conter o aquecimento global.
Um dos pontos centrais da proposta é a flexibilidade. A dieta pode ser adaptada conforme os hábitos culturais e a disponibilidade de alimentos em diferentes regiões. Ela permite variações que vão desde versões vegetarianas e veganas até aquelas que incluem pequenas quantidades de carnes e laticínios.
Por exemplo, nos Estados Unidos e no Canadá, o consumo de carne vermelha é atualmente mais de sete vezes superior ao recomendado. Já em regiões com carências nutricionais, como partes da África Subsaariana, um leve aumento no consumo de frango, ovos e leite poderia trazer benefícios à saúde.
Injustiças no sistema alimentar
O relatório também chama atenção para as desigualdades globais no acesso à alimentação saudável. Mais de 2,8 bilhões de pessoas não têm condições financeiras de manter uma dieta equilibrada. Enquanto isso, outras 1 bilhão convivem com a desnutrição, mesmo em um mundo onde há produção alimentar suficiente.
Os 30% mais ricos da população mundial são responsáveis por mais de 70% dos danos ambientais causados pela alimentação, segundo os dados apresentados.
Para reverter esse cenário, os pesquisadores recomendam uma série de medidas estruturais. Entre elas, estão:
- Reformular subsídios agrícolas para priorizar alimentos saudáveis e sustentáveis;
- Aumentar os impostos sobre produtos ultraprocessados e de baixo valor nutricional;
- Adotar rotulagem de advertência e restringir a publicidade de alimentos prejudiciais à saúde.
Uma dieta possível e saborosa
Segundo os cientistas, a dieta planetária não é uma proposta de privação, mas sim uma oportunidade de transformação positiva. “O que colocamos em nossos pratos pode salvar milhões de vidas, reduzir emissões de gases do efeito estufa, frear a perda de biodiversidade e criar um sistema alimentar mais justo”, afirmou o professor Johan Rockström, co-presidente da Comissão EAT–Lancet, citado pelo The Guardian.
A “dieta saudável planetária” é centrada em alimentos de origem vegetal, mas sem excluir completamente os produtos de origem animal. Segundo o relatório, a base deve incluir:
- Vegetais e frutas frescas, consumidos em abundância;
- Leguminosas (como feijão, lentilha e grão-de-bico);
- Oleaginosas (como nozes, castanhas e amêndoas);
- Grãos integrais, como arroz integral, aveia e cevada;
- Gorduras saudáveis, como azeite de oliva e óleos vegetais não saturados.
O consumo de carnes vermelhas, laticínios, ovos e peixes é permitido, mas de forma moderada. Já o uso de açúcar, gordura animal, óleo de palma e alimentos ultraprocessados deve ser significativamente reduzido.
A proporção dos grupos alimentares pode ser adaptada conforme as realidades culturais e econômicas de cada região, mantendo-se o foco na sustentabilidade e na nutrição adequada.
O professor Walter Willett, da Harvard T.H. Chan School of Public Health, também co-presidente da comissão, reforça: “Essa é uma proposta deliciosa, viável e saudável. Ela respeita a diversidade cultural e as preferências individuais, oferecendo flexibilidade”.
O relatório atualiza e amplia as conclusões de uma publicação anterior, de 2019. Com dados mais robustos, os autores conseguiram associar diretamente a dieta planetária a reduções nas taxas de mortalidade por doenças como diabetes, infartos, derrames e problemas respiratórios.
Em um contexto global de crise ambiental e sanitária, os especialistas destacam que a transformação dos sistemas alimentares deixou de ser uma escolha e passou a ser uma necessidade urgente para garantir um futuro seguro, justo e sustentável.






